sábado, 9 de março de 2013

Em Obras



A Helix está neste momento em consulta médica de rotina. É uma forma de dizer, porque a rotina que ela tem conhecido nos últimos tempos baseia-se em mudar pneus, óleo e filtro, por ordem decrescente de frequência.

Mas desta vez não. Decidi mandar limpar o circuito de refrigeração que há muito apresentava aquele castanho barrento, estilo gelado moka. E a culpa é da Helix. Uma scooter muito fiável e de acessibilidade mecânica difícil desincentiva qualquer um. Até os mecânicos ! É preciso desmontar mais de meia scooter para lá chegar.

A proximidade da ida à Serra da Estrela, e a preparação do Lés a Lés - para o qual já me inscrevi - convenceram-me a fazer manutenção em áreas onde ainda não tinha tocado na bizarra locomotiva. Acredito que convirá dar atenção a alguns sinais se quiser continuar a beneficiar dos seus leais serviços na estrada.  

Estamos a investigar a razão pela qual a ventoinha não está a disparar. Aparentemente trata-se de uma válvula junto ao radiador que não está a cumprir a sua missão. Um teste em água declarou-lhe a morte.

Depois, a falange do carburador que acredito que tenha sido responsável por um ralenti irregular, quer a frio, quer a quente, e o já famoso cheiro a jet fuel. Esta maleita já tem mais de um ano, não queria adiar mais a sua resolução. Após inspecção verificou-se que a borracha está ressequida e não custa acreditar que se verifique passagem de ar indesejada. Aliás, este é um dos pontos críticos das CN, assinalado por muitos utilizadores frequentes nos foruns internacionais dedicados ao modelo.




Nenhum destes problemas foi até agora impeditivo de continuar a gozar a Helix, sempre que quero. Esta fiabilidade, até agora de cem por cento, é uma das razões pelas quais a Helix me agrada tanto. Tem sido incrivelmente resistente. Espero que esta atenção adicional que agora lhe dedico não seja mal interpretada. Tenho pavor de máquinas que se afeiçoam a mecânicos. Há quem diga que é por culpa desse bloqueio emocional que nunca terei uma Lambretta...


sábado, 23 de fevereiro de 2013

A Lambretta do Essex




Essex, Reino Unido, início da década de 1960. Uma Lambretta TV conduzida por uma jovem mulher de saias, casaco e sapatos de salto, com um pára brisas alto a denunciar um uso utilitário.


A TV é, tal como a vejo, uma das Lambretta mais femininas, cheia de linhas suaves e curvas, onde não se encontram traços tensos. É a antítese de uma scooter agressiva no design, como são, por exemplo, as SX e as DL.


É curioso como hoje em dia as Lambretta são conotadas como scooters para andar de faca nos dentes, rápidas e quase viris, em contraponto às Vespa, mais redondas e amigáveis. Relaxadas. A fotografia relembra-nos que nem sempre foi assim, já que o uso no quotidiano e sem exclusão de género está mais do que sugerido na indumentária desta condutora.


Esta imagem tem origem numa página oficial da British Petroleum, fazendo alusão ao Energol, a designação do lubrificante mineral destinado aos motores a dois tempos usado na época. A mistura seria feita previamente na bomba, à antiga, sem recurso aos actuais copos de medição, indispensáveis para qualquer Lambrettista no século XXI.


Outra diferença para os tempos modernos parece ser o ritmo calmo que a cena inspira. Talvez seja meramente aparente, mas o simples facto de ter um funcionário a abastecer e a receber - actividades que ainda demoram uns minutos - e não apenas a passar o cartão magnético para efectuar o pagamento na caixa, como hoje, convida a uma maior interacção entre os intervenientes. Uma certa humanização desaparecida na pressa quase sempre inútil dos nossos  dias.


Tudo na fotografia é, portanto, anacrónico. Embora pareça vagamente familiar: a bomba BP zoom, o hoje raro funcionário no abastecimento vestido de bata branca, o estilo invulgar do capacete. E uma Lambretta utilitária.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Scooter, o Cão, e a Ilustração





Criteriosa selecção de scooters clássicas neste calendário ilustrado. Alinhar uma Maico Mobil, uma Salsbury e uma Heinkel no mesmo documento merece uma nota sublinhada, ainda que a intrusa não tão clássica que foi escolhida destoe e acabe por manchar fatalmente o conjunto. Também não sou adepto de caninos, em especial se aparentam ser movidos a energia eléctrica. Mas suspeito que se não fossem eles, a autora,  Lili Chin, não se teria dado ao trabalho de idealizar e executar esta curiosa ilustração. Lendo um pouco sobre a sua actividade, rapidamente se percebe que não é uma ilustração de scooters com cães, mas sim uma ilustração de cães com scooters.
  

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Combate ao Frio




Tenho estado em pousio, a cumprir apenas os quilómetros mínimos semanais aptos a manter as baterias em níveis aceitáveis. As minhas e as das scooters.


Quando olho para o calendário com linhas por trimestre, já consigo ver a ida à Serra da Estrela. Talvez animado por essa proximidade no horizonte dos meus dedos, não resisti a comprar uma manta térmica para as pernas para instalar na Helix. Sim, estou... amantizado :). Na verdade, já tenho há muito um avental daqueles à sapateiro, mas que apenas posso usar - e uso pouco - na Bianca. Devido ao seu formato não é possível utilizá-lo em scooters com os pés para a frente como a Helix. Quem vai passando por aqui sabe que a Bianca não tem sido a minha escolha para viagens, facto que se aliou a um preço tentador para resultar numa compra impulsiva, algo realmente raro em mim.


Hoje fiz alguns testes para verificar se o dito thermo scud funciona bem, e já percebi que tenho que melhorar o ajuste das cintas. Na Helix também não ajuda o facto de ter um travão de pé no ski direito e próximo da saída da plataforma, o que dificulta a fixação da cinta e potencia um desagradável risco de prisão indesejada do pé. Algo a que, por coincidência, estou ainda a habituar-me recentemente depois de comprar uns pedais de encaixe para a minha bicicleta de estrada.





A combater o frio, de pés mais ou menos presos, mas com vista para um horizonte que perspectiva novas viagens com o céu mais azul.


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Enredo



Bela cena de época e do quotidiano inspirada na escola realista. Reparem no caminhar triunfal do homem da mala, enquadrado pelo vértice de Lambrettas em direcção ao exterior da imagem. Quase como se quisesse ser ele não apenas o protagonista, como também o próprio espectador da tela. É o único em verdadeira acção e movimento. Todas as personagens - e são muitas - sorriem e parecem observá-lo, ainda que alguns indirectamente, ou com menos atenção.


A primeira pergunta que fiz quando vi a imagem, antes mesmo de descortinar que modelo de Lambretta faz parelha com a belíssima Li 150, foi a de saber o que levará o homem de fato na mala. Os documentos da Li ?!? A declaração de venda ? Uma encomenda de gelados para o Brighton Coffee Bar ?!? Na minha primeira observação a mala é o objecto central, quase magnético, da tela.


Claro que, com tantas personagens, as perguntas vêm umas atrás das outras, como as cerejas. Qual o género do(a) fumador(a) de camisola branca e bolsa a tiracolo ? Feminino ou masculino ? E o ar suspeito do homem de fato à frente da montra, também ele fixado na mala castanha do homem confiante de fato cinzento ? O que pretenderá ? Não faltam pistas para um enredo a partir da tela de Trevor Mitchell.  
 
 

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

In the Sticks




Revisitando álbuns de imagens com o rótulo Bianca no assunto, apercebo-me, e com algum arrependimento, que raras são as vezes em que nelas aparece gente. Uma razão óbvia para esse facto é a circunstância de maioritariamente viajar sozinho. Outra poderia ser, talvez, o facto de me deslumbrar mais com a natureza em bruto do que com a própria natureza humana. Mas suspeito que esta última razão não será verdadeira. Não são muitos os perfis que aqui registo em imagens, mas talvez por conveniência conjuntural, ou até alguma timidez.

Registar as imagens deste e não de outro modo é frequentemente um jogo egoísta, em que gosto de me convencer que sou eu que dito as regras da gramática visual. Que faço o papel do maestro. Na verdade, é uma composição a três. Entre mim, a natureza ou alguma intervenção humana nela, e a máquina. A minha função é quase sempre atrás da câmara. Tenho a ilusão de que dirijo, querendo narrar a história. Mas há sempre um limite, um limbo invulnerável, como uma força psíquica na objectiva, na luz e na sombra, que nunca é verdadeiramente controlável. O que eu vi não é o que se vê na imagem. Nem a percepção de quem a interpreta ao olhá-la. 

Os perfis e os retratos são ainda mais complexos, e as histórias dentro deste género revelam um outro potencial. Sempre me pareceu que é aí que a câmara se pode transformar num microscópio.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Ventos e Vales




Entre vinhedos, parei. Era dali que tinha imaginado uma perspectiva diferente sobre a estação. Uns minutos antes tinha estado no apeadeiro, onde constatei que o relógio Paul Garnier desapareceu, como as pessoas que aqui vinham. O celeiro também. Restaram as tábuas, ordeiramente empilhadas junto à rede, como se para ali se deslocassem por acção misteriosa dos ventos. Já estive nesta estação dezenas de vezes, jamais me cruzei aqui com alguém. Ainda recentemente aqui estive, e ainda não tinha percebido que ali em cima, a uma cota um pouco mais alta na colina, entre as vinhas, corria uma estrada de alcatrão, estreita, entre postes eléctricos de madeira, dispostos em ângulos muito diferentes do ideal. Senti-me impelido a descobrir-lhe o ponto de entrada. Queria ver como seria a estação a partir dali. Quando, minutos depois, parei entre os vinhedos, estranhamente não fotografei. O amarelo torrado fundia-se com madeixas alaranjadas no apeadeiro. A luz do fim de tarde de inverno abatia-se numa linha sobre o telhado do edifício ainda digno. Senti uma absoluta desnecessidade de fotografar. E agradeci o deslumbramento das coisas simples. Esperei apenas que a sombra engolisse a estação. O cenário era perfeito, a metáfora da linha ferroviária como a linha do tempo, lá em baixo, entre vales, a correr da esquerda para a direita, e o apeadeiro quase ao centro, a representar o presente. À esquerda, o passado. À direita, o futuro, o que me falta viver. Não se fotografa o futuro. Todos sabemos que a câmara mente. O tempo todo.