Reconheço que é um exercício difícil. Explicar a alguém porque motivo faz sentido utilizar a scooter para fazer uma centena de quilómetros diários justamente agora que o frio parece querer gelar-me os ossos e a chuva teima em não deixar de cair. Fora de mim, para lá do meu fato de chuva.
A estrada esconde-se por debaixo da película de água e da viseira do meu capacete escorrem rios de gotas. Escondo-me também. No meu escudo, no meu mundo, no meu fundo. No meu silêncio disfarçado pelo ruído do escape. Estranhamente, é na aparente claustrofobia da imersão no equipamento, nesse silêncio para além da máquina, que muitas vezes encontro espaço para falar comigo.
Parece um absurdo, eu sei. Até porque é à chuva que a condução em duas rodas se torna especialmente delicada, exigindo ainda maior apuro dos sentidos. Tudo se torna mais difícil. O doseamento da travagem e da aceleração, o equilíbrio em curva, o vento, as marcas das passadeiras, as tampas de esgoto, as juntas das pontes e viadutos, a visibilidade reduzida, os automobilistas ainda mais distraídos. Tudo isto retira espaço à introspecção. A impressão que tenho talvez seja errada, mas é como se o cérebro processasse com outra rapidez a informação. Como se fosse outra a gaveta de cansaço, diferente daquela que costumo usar quotidianamente. É certo que as viagens, feitas assim, são objectivamente mais cansativas do ponto de vista da condução. Mas nunca dou comigo a pensar que preferia ter levado o carro. Isso basta-me. Eis as verdadeiras razões pelas quais os meus odómetros parecem rolar mais à chuva.