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sábado, 9 de março de 2013

Linha e Tempo



Enquanto escrevo este post, abate-se um temporal medonho lá fora. Esteve assim durante toda a manhã e intensificou-se a partir do final da tarde, com clarões, trovões, relâmpagos e chuva intensa. Porém, a meio da tarde sentiu-se o sol, com aquele céu dramático, de nuvens de vários tons e luz quase messiânica, com feixes por vezes de contornos bem visíveis. Decidi sair da garagem durante essa aberta e apanhei a estrada seca, por acção de um vento forte. Parei a meio e fiz esta imagem, cheia de linhas verticais, incluindo a do capacete que hoje usei, para além das três linhas que se perdem no ponto de fuga para lá do semáforo azul. Guardei a máquina antes de acordar a Bianca e regressar a casa. Escolhi o caminho em função das nuvens, a tentar fugir à mais ameaçadora e densa. Bem acelerei, mas em vão. Acertou-me em cheio. 


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Ventos e Vales




Entre vinhedos, parei. Era dali que tinha imaginado uma perspectiva diferente sobre a estação. Uns minutos antes tinha estado no apeadeiro, onde constatei que o relógio Paul Garnier desapareceu, como as pessoas que aqui vinham. O celeiro também. Restaram as tábuas, ordeiramente empilhadas junto à rede, como se para ali se deslocassem por acção misteriosa dos ventos. Já estive nesta estação dezenas de vezes, jamais me cruzei aqui com alguém. Ainda recentemente aqui estive, e ainda não tinha percebido que ali em cima, a uma cota um pouco mais alta na colina, entre as vinhas, corria uma estrada de alcatrão, estreita, entre postes eléctricos de madeira, dispostos em ângulos muito diferentes do ideal. Senti-me impelido a descobrir-lhe o ponto de entrada. Queria ver como seria a estação a partir dali. Quando, minutos depois, parei entre os vinhedos, estranhamente não fotografei. O amarelo torrado fundia-se com madeixas alaranjadas no apeadeiro. A luz do fim de tarde de inverno abatia-se numa linha sobre o telhado do edifício ainda digno. Senti uma absoluta desnecessidade de fotografar. E agradeci o deslumbramento das coisas simples. Esperei apenas que a sombra engolisse a estação. O cenário era perfeito, a metáfora da linha ferroviária como a linha do tempo, lá em baixo, entre vales, a correr da esquerda para a direita, e o apeadeiro quase ao centro, a representar o presente. À esquerda, o passado. À direita, o futuro, o que me falta viver. Não se fotografa o futuro. Todos sabemos que a câmara mente. O tempo todo.



sábado, 3 de março de 2012

Ferrugem



Sentei-me, busquei um ponto de fuga. Procurei a palmeira que eu sei que está ali por engano. E que, sem pedir licença, vai sobrevivendo às construções que não era suposto ver cair. Olhei para a luz vertical e recentrei o foco à esquerda. A ferrugem, aqui, pode ser tristemente bonita.


sábado, 31 de dezembro de 2011

Carris de Férias



Tenho tido poucas oportunidades para sair da garagem em duas rodas, mas hoje tudo se conjugou para uma tarde de conversa na estrada com a Bianca. Até Sintra, no último dia do ano, para desenhar linhas paralelas à linha do eléctrico. Numa ponta a Praia das Maçãs. Na outra, o início da vila de Sintra.










A ligação faz-se há mais de cem anos, desde 1904, embora com interrupções do serviço e diferentes extensões de linha ao longo do tempo. Lembro-me de vir para Sintra passar períodos de férias em criança, e de ver a linha ao abandono. Em 1975 a linha foi encerrada, ultrapassada pelo autocarro. Só em 1997, após requalificação, foi reaberto o troço Ribeira de Sintra  -Praia das Maçãs, mais próximo da configuração de 1904.
  

  








Este verão tentei trazer a  pequena Beatriz para viver as sensações do eléctrico aberto à brisa, ao longo dos doze quilómetros do percurso, mas deparámo-nos com filas maiores do que a capacidade do eléctrico. É uma viagem que exige tempo. Há que contar com quarenta e cinco minutos para cada lado. E se não houver lugar vago na carruagem, a espera pelo próximo eléctrico é de mais uma hora. 

Apesar de acompanhar a desilusão e frustração da Beatriz, fiquei secretamente contente por verificar que a procura pode exceder a oferta num serviço ferroviário com mais de cem anos em Portugal.   






Hoje não havia circulação, pelo que pude deambular à vontade pela linha. Mas não pelas novas oficinas. Tentei fotografar a frota que descansava debaixo do alpendre, mas não me foi permitido. Pude ver apenas três unidades ao longe. 

É impossível comparar a elegância de objectos industriais com largas décadas de diferença.

De um lado as mais belas carroçarias de eléctricos abertos, de bancos corridos e entrada lateral, de fabrico norte americano do início do século XX.          

Do outro, a Vespa.

Na falta dos eléctricos só pude fotografar a Bianca, mas no habitat natural da ferrovia.







sábado, 8 de outubro de 2011

Linha Tua (V)



(continuação)

Caminhar pelas linhas de comboio exige uma cadência diferente do nosso passo comum. As travessas têm um espaçamento que se desencontra com o passo de um adulto. Uma travessa por passo é demais, o que obriga a descer e subir a cada avanço. Tal como para um ciclista que enfrenta a montanha, o segredo está no ritmo. A par da importância deste, anotem o calçado adequado para trekking.

Ignorar os avisos que proibem a caminhada também faz parte. Mesmo em carris desactivados, ainda resiste a tradicional sinalização vertical metálica  que interdita o passeio ao sabor da linha. Claro que convém estar atento a zonas de perigo efectivo, como riscos de desmoronamento ou a utilização de explosivos. Felizmente que no fim de semana em que me desloquei ao Tua, não estava em curso nenhuma manobra com TNT.




O acesso ao Viaduto e Túnel das Presas já tem um tapete de madeira central que antecipa a metáfora da auto-estrada do progresso. É um sinal de trabalhos na linha, com vista ao seu desmantelamento. Aliás, bem visível já ao longo dos primeiros quilómetros do vale, onde são vários os troços já sem carris.





Ultrapassar o viaduto a pé já não é um acto que nos faça medir ao centímetro os movimentos de pés, atentas as regras de segurança agora impostas por força do trabalho dos operários. Mas estar lá em cima é daqueles momentos em que nos sentimos vivos. Em que preferíamos que o nosso sangue circulasse a uma temperatura mais baixa.







O Túnel das Presas é relativamente curto e não oferece grande sensação de claustrofobia. Não sei se por causa dos trabalhos em marcha, o facto é que não me cruzei com nenhum morcego, embora a existência de colónias nos túneis seja frequentemente relatada.








À saída do túnel, o som do silêncio domina-nos. E só se quebra com os esparsos diálogos dos habitantes que ainda resistem ao longo do vale. Todos eles representantes tímidos de uma fauna que seguramente já foi exuberante. Imagino que o mesmo se pudesse dizer da flora. 







O aparato de máquinas amarelas junto ao rio denuncia a revolução. Embora estejam imóveis hoje, têm vindo a desenhar novas formas para este habitat natural. Esta acção humana tem um nome. E não é bonito: chama-se crime.




Esta foi uma das razões que me fez vir até aqui. Antes que as ruidosas máquinas amarelas afoguem o vale no silêncio definitivo.




 
O calor do final de Julho não convida a caminhadas. A estação quente aliou-se à curta disponibilidade de tempo para me impedir de avançar tanto quanto gostaria. Nem sequer vinha preparado com um farnel que me permitisse descer ao rio e desfrutar de uma refeição em comunhão com a natureza. Regressei, por isso, quase ao início da linha, para voltar a alcançá-la mais à frente: na Brunheda.


 


A Brunheda oferece alguns planos muito próximos do paraíso. A imagem que se segue pode materializar o conceito. Pelo menos tal como eu o vejo.   




Na forma e na cor, perpassa da imagem um cenário idílico, de rio e linha. Tal qual aqueles cenários de brinquedos construídos com abundantes peças e acessórios com que na minha infância sonhava. Tão perfeitos que quase dispensam o manuseamento pela criança. Só a simples observação já é estimulante.





A Brunheda não é um brinquedo. É real. Infelizmente estamos prestes a destrui-la, tal como todo o troço de linha para sul, pois este é o limite norte previsto para a barragem.




Foi a algumas centenas de metros daqui que se deu o último acidente na Linha, em Agosto de 2008, a última pá de terra atirada sobre o carril em par. 





















Se dúvidas ainda restassem, a tomada de vistas a sul revela a supremacia política da estrada de alcatrão sobre a estrada de ferro.








A Brunheda foi o último destino planeado desta viagem ao Tua. Em jeito de flashback, podem ver como era a vida da Linha na década de oitenta do século passado.


O azimute deslocou-se  então do Tua para o almoço, já que a manhã cheia secundarizou a necessidade do pequeno almoço, que acabei por nem tomar. Carrazeda de Ansiães recebeu-me para abastecer o estômago da Helix e, mais importante, o meu. Desse almoço retenho a quase redundância da faca. Ainda que fosse de papel não deixaria de cortar o genuíno bife mirandês que degustei em troca de oito euros.


A saída de Carrazeda assinalou o início do regresso. O calor tórrido fez-me optar por acompanhar o Douro até à Régua, estrada que para além de mais fresca é bonita. A partir daqui o plano era atingir rapidamente o Vouga até meio da tarde, para encontrar amigos que por ali deambulavam em passeio de scooters. Parei em Viseu, à sombra, para beber água e sair da A24.


Quando retomei a marcha pareceu-me ter a frente instável, o que me fez encostar. Desloquei o tronco para a esquerda, baixando a cabeça na esperança de não ver um pneu com pouca pressão. Uma rápida inspecção lateral não acusou anomalias. Tanto melhor. Retomo a estrada e entro na N16, depois de um SMS em que pedia coordenadas para o encontro. Dois quilómetros adiante sinto nova instabilidade, agora na traseira da comprida Helix. É um furo, não tenho dúvidas ! Berma da estrada. Rogo pragas ao esquecimento da garrafa anti-furo, que anda sempre na mala da Helix, excepto quando é necessária. Uma inspecção ao pneu mais atenta permitiu-me ver a dimensão do problema:





Trata-se de um Metzeler ME7, com menos de três mil quilómetros, e menos de um mês de uso (!) Fez um Lés a Lés e esta viagem. Pese embora a utilização tenha sido intensiva, com temperaturas altas e peso considerável atrás, parece-me que não chocarei consciências se disser que a durabilidade é curta. Corrijo e adjectivo: ridiculamente curta. Este pneu não é de competição, embora se desgaste como tal. A riscar em futuras aquisições.

De volta a Viseu. Viseu não. Travanca da Bodiosa. Perto de Viseu. Ligo ao Duarte que julgava estar por perto, mas estava por Aveiro. Ligo à assistência em viagem e fico a saber que o rebentamento de um pneu não dá direito a reboque. Só um acidente ou uma avaria. E o rebentamento de um pneu não é, diz-me a Logo, uma avaria. Bonito. Resta-me estabelecer contacto com alguma alma, talvez um habitante de Travanca.

Curiosamente não fiquei irritado, nem com vontade de pontapear a Helix. Simplesmente percebi que não seria um furo - mesmo que impedisse a continuação da viagem - que iria apagar o quão gratificante tinha sido o fim de semana. Lembrei-me também de uma frase do meu amigo Zé Paulo, que uma vez me disse que o melhor que lhe aconteceu em Marrocos foi ter ficado uma vez sem gasolina no meio do nada. E eu nem sequer estava em Marrocos, estava a meia dúzia de quilómetros de Viseu!  


Olhei em volta e do outro lado da estrada vejo uma vivenda. Interpelo então o senhor Ferreira. Depois de me apresentar, e de ter assistido ao habitual franzir do sobrolho que se segue à resposta à pergunta clássica "de onde vem e para onde vai (nisso)", convenci-o a fazer sair o seu Mercedes azul do quintal, em busca de um anti-furo. Não custava tentar. Regressámos então com o anti-furo comprado na estação de serviço. O resultado já estão a imaginar qual foi. Todo o ar que entrou no Metzeler tubeless saiu lenta e desoladoramente pela tela em carne viva. O que esvaziou a minha esperança de finalizar a viagem em cima da Helix. Sr. Ferreira, tenho que lhe fazer um pedido: importa-se que deixe aqui a scooter à sua guarda por um ou dois dias ? O homem encolheu os ombros e anuiu.

Faltava saber como sair de Travanca da Bodiosa: Pouco passava das cinco e meia da tarde. Ligo à minha mulher, que graças a São Google  me diz que tenho um autocarro que parte de Viseu para Lisboa às seis da tarde. O que tornava obrigatório fazer um terceiro pedido ao Sr. Ferreira, que estava nesta altura a dar uma mangueirada dominical ao seu Classe C azul. "Eu levo-o lá". A curta viagem  que se seguiu incluiu alta rotação no Mercedes, rotundas ao estilo "eu já cá estava", e as minhas unhas cravadas nas laterais do banco direito. Cheguei ao terminal dos autocarros vivo e ainda faltavam dois minutos para as seis! Obrigado, Sr. Ferreira!






A viagem parou aqui para a Helix. O autocarro levou-me tranquila e lentamente até Lisboa, onde cheguei ao cair da noite. Aproveitei para fazer um telefonema ao meu amigo Paulo Salgado que deu início a uma outra viagem. A de um pneu para a Helix que saiu, no dia seguinte, de Guimarães para Mangualde. A recolhê-lo estaria o Duarte, que me levou o novo pneu e a Helix, de carrinha, de Travanca para a oficina em Mangualde. Obrigado, amigos!

No final da tarde da sexta feira seguinte viajei até Aveiro, onde tinha à minha espera o Duarte e sua deslumbrante Lambretta Li 150 artilhada até aos dentes, acompanhados pelo restante gang de Aveiro, onde jantámos. Ceámos já em Mangualde, onde recolhi a Helix com sola nova já passava da meia noite.

A conversa ia longa, o petisco entusiasmava, e já eram duas da manhã quando me despedi e saí para casa, a solo. A noite estava clara em Mangualde, que dormia serena quando a deixei para trás. Não chegava a trezentos quilómetros e a quatro horas a distância para a minha cama. Quase nada para fechar a viagem da semana anterior. Afinal, até gosto de viajar no fresco da madrugada.

Tenho dúvidas que furar, perder o blusão e o cartão multibanco tenham sido o melhor que me aconteceu na viagem. Mas seguramente que nenhuma destas peripécias foi negativamente importante. Só abriu chavetas de oportunidades que gosto de manter abertas. O blusão apareceu, foi-me enviado intacto por correio por um habitante de Verride que o recolhera, assim como o cartão multibanco, que entregou ao balcão do Banco na segunda-feira seguinte. Que sorte que tenho. A generosidade pura dos amigos e a genuína ajuda dos desconhecidos. Que viagem.    




quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Linha Tua (IV)



(continuação)


Cheguei à Estação. Ainda é cedo, mas o sol já está desconfortável, queima-me a pele. As sombras são escassas mas pouco concorridas. Na verdade, o meu campo visual está quase vazio de gente. Ao fundo, dois homens desmontam andaimes de um palco que lentamente vai deixando de o ser. Ao longo do ramal da linha desactivado, ouve-se o tilintar de garrafas vazias ao encontro de outras. São dois outros homens que vão enchendo grandes sacos verdes do vidro gasto, sinal do enterro da festa da véspera em Foz Tua Estação. 

O espaço em volta é amplo. Abro a mala e fico indeciso na escolha dos acessórios para acoplar ao corpo da Nikon. É a habitual dificuldade em focar-me rapidamente quando chego a um território novo pleno de interesse. Como escolher o que captar primeiro ? Um detalhe ou um plano largo ? Decido carregar o cinto com o material que antecipo vir a precisar, para evitar voltar frequentemente à scooter.

O que vejo é um cenário a duas velocidades, tal como no Pocinho. Mas aqui, em Foz Tua, não estão separados por trezentos metros de linha. Estão arrumados num espaço físico mais concentrado.

Por um lado a estação central, que antevejo ser o íman em torno do qual se gravita.






Cuidada, preservada na madeira, no azulejo, na pedra. Sem guarda aparente e com um pequeno mas digno museu aberto, com peças do mundo ferroviário, onde me refugiei aproveitando a sombra fresca. Reparem no pormenor da inscrição na moldura de pedra da porta principal: Grande Velocidade.









Em volta deste prenúncio do TGV duriense, vejo o outro lado. Aquele em que o cuidado dá lugar ao desleixo, em que o primor cede perante o abandono. Este património ferroviário merecia mais. Memória e respeito.







Estas são composições cuja dignidade é há muito ignorada. Esventradas pelo catálogo das dilinquências, não respondem à pergunta mais simples: como é possível ter-se chegado aqui ?


































O estado de conservação desta locomotiva a vapor, que esteve ao serviço na Linha,  dispensa qualquer legenda. Neste primeiro plano assemelha-se a um navio naufragado.























O abandono destes pedaços de história à sorte, à inclemência da erosão do tempo e, sobretudo, à acção do vandalismo mentecapto, ultrapassa os limites da negligência. Todo este material circulante agoniza hoje na Estação de Foz Tua, sem que uma luz se vislumbre no final do verdadeiro túnel negro que é o futuro da ferrovia portuguesa. Muito mais do que das palavras, é das imagens que me sirvo para contar a história.








































Saí da Estação de Foz Tua com uma sensação paradoxal. Vi o que tinha para ver. Triste fado o dos caminhos de ferro. Só vestindo a pele do fotógrafo, mais frio e protegido pela câmera documentalista, me senti confortável. 




À direita da Helix o quilómetro um dos mais de cento e trinta da Linha do Tua. Vou fazer os primeiros a pé...