Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2012

Clube Sem Fronteiras






Se a scooter foi e é vista como um veículo essencialmente urbano, uma visita ao Vespa Clube de Lisboa vai permitir que essa impressão se alargue. Não só para fora da urbe, como também para longe do rectângulo português. Na sede na Avenida Infante Santo pode sentir-se o peso de quase 60 anos de peripécias e aventuras, muitas delas fora de portas.











Faixas de ralis antigos, placas, troféus, fotografias, posters e outros pedaços de história, sinais do alcance sem fronteiras das Vespa e dos Vespistas. É, também, a responsabilidade de ser o mais antigo clube português de duas rodas.



Bélgica, Itália, França, Holanda, Alemanha, Inglaterra, Espanha são apenas alguns dos países que deixaram a sua marca, através dos Vespa Clubes locais, na história do VCL.  














Do Brasil pude trazer material de clubes locais, como faixas do RGS em Vespa, e autocolantes da Confraria Rio Vespa Clube e da Confraria Vespa Motor Clube Dois Irmãos, de Rio Grande do Sul. Depois de rodar na PX200S da MotoVespa, foram-me entregues em mão no Rio de Janeiro e selados com um abraço ao carioca Leo Dueñas




O Presidente do VCL, João Máximo, encarregou-se da tarefa de fiel depositário. A imagem seguinte atesta que os vespistas brasileiros já estão representados em Lisboa, com o Kes, aqui, a assinalar embaixada do Rio de Janeiro.








Alguns dos nossos sinais vão fazer o caminho inverso para o hemisfério sul. Como sinais, como símbolos, são uma representação. De um ideal de companheirismo, de partilha, de amizade, de liberdade, e de entusiasmo em volta da Vespa, desse conceito de metal  que vive atrás de um escudo. Mas que quase juramos que é matéria da alma e dos afectos. Não é por acaso que muitas têm nome próprio.  
  



Símbolos. Símbolos em trânsito. 

Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

Rali Luso Espanhol 1963



Por vezes a Vespa consegue ser uma inesperada escola de iniciação à  competição.

Estava longe de imaginar que o multicampeão português de velocidade Ernesto Neves, personagem com um fulgurante palmarés de nove títulos nacionais nas competições automóveis em Portugal entre os anos de 1966 e 1973, se estreou nas corridas com uma Vespa GS.

Sob o patrocínio do Vespa Clube de Lisboa, e organizado pelo Clube Atlético de Queluz, realizou-se em 1963 o Rali Luso Espanhol em Vespa. Ao contrário do actual Ibero Vespa, o Rali Luso Espanhol não era um passeio. Era uma prova competitiva de regularidade que ligava Almada à Costa da Caparica, numa extensão de quarenta quilómetros, segundo rezam as crónicas de imprensa da época.

Neves ganhou, ostentando o número treze no escudo da GS que servia como estafeta no escritório da família. O estreante e futuro campeão beneficiou ainda do facto de utilizar a única GS 160 na prova.

Curiosamente, o Rali apenas teve dezanove concorrentes, sendo que a comitiva espanhola que conferia carácter ibérico à competição acabou por não alinhar. Chegaram tarde ao local da partida (!).



Imagens da fotobiografia autorizada de Ernesto Neves em nenemotos.blogspot.com

Terça-feira, 31 de Janeiro de 2012

Copiar a Diferença - LML Vivo Scooters





Fazer diferente quando tudo parece saturado e igual é um desafio. Os indianos da LML tiveram o mérito de fazer chegar à Europa uma scooter pela qual o mercado ainda suspirava, mas a Piaggio não queria produzir. O sucesso indiano foi tal que os italianos retomaram a produção da Vespa PX após quatro anos de interregno (2007-2011).

Quando a Piaggio anunciou o regresso da PX a dois tempos, já a LML tinha nos stands do velho continente o modelo a quatro tempos, que tem vingado nas cilindradas de 125 e 150, e está a começar a provar na tão apetecida 200. Através do importador europeu, sediado em... Itália, a LML tem oferecido versões com sal e pimenta, desde as Mat Series até às RS, passando por uma versão de pista. Só não percebi como ainda não pintaram uma LML Star  no lindíssimo azul mediterrâneo da PX. É óbvio, não !? Fica a dica grátis.

Até porque a Piaggio continua a não ouvir. Aparentemente mantém-se  encostada às cordas, sem capacidade ou vontade de reagir. Vende um produto substancialmente idêntico ao indiano. Substancialmente mais caro. Na fase de relançamento da PX estavam relativamente próximos, mas actualmente não estão, porque a Vespa subiu o seu preço, e a LML desceu.

No meio desta nova guerra Europa / Ásia, ainda existem velhas regras e paradigmas. Porque a scooter é um excelente meio de transporte anti-crise, muitos europeus procuram uma, ainda que os seus bolsos estejam cada vez mais vazios. O acesso às 125cc por parte dos automobilistas abriu um mercado com um enorme potencial. A verdade é que muitos destes novos clientes nunca comprariam uma moto ou scooter se esta regra não fosse implementada. Jamais tirariam a carta para poderem depois aceder a cilindradas mais altas. Experimentaram as 125cc, e gostaram. E o efeito de contágio também é significativo. Se o mercado se massifica, a necessidade de diferenciação também vai aumentar.     

E é aqui que entra a Vivo Scooters. Não é propriamente uma novidade, mas deve valorizar-se o facto de os rapazes ingleses não se limitarem à oferta disponibilizada pelos outros. Criaram uma linha de produtos própria que vendem a preços relativamente terrenos, e que permitem transformar de modo facilmente reversível uma LML Star de modo a que seja possível ter duas scooters numa. Quem tiver uma Star pode comprar o conjunto ou apenas parte do kit e alterar a estética para algo significativamente mais clássico, como os balons da GS.  

Na verdade, já há algum tempo que a Vivo Scooters produz réplicas em metal dos  painéis das clássicas Vespa GS 160.  Actualmente já estão a produzir kits com painéis que replicam a SS180. E a última novidade é a Rally 200 !





Abstraiam-se dos pneus de faixa branca, e da horrível combinação de cores da carroçaria, que é propositada para realçar as peças do kit, em branco. Tentem imaginar esta scooter toda em laranja, com as faixas Electronic brancas e com uns pneus decentes.




A Vivo Scooters ainda não explicou se este primeiro exemplar corresponde exactamente ao kit que vão disponibilizar. Até porque, ao contrário dos kits anteriores, no modelo das fotos várias outras peças e soluções são claramente diferentes da LML: o farol, o farolim, o porta luvas e o banco, suspensão e travões.  À primeira vista parece uma Rally montada em cima de um quadro Star, mas pelas imagens nem é para mim claro que aquele quadro seja mesmo de uma LML.

Caso seja de sangue indiano, preferiria também a solução de travão dianteiro utilizada com os kits GS160, com disco, em prejuízo da estética clássica, mas em benefício da segurança.

Fica por explicar por enquanto se produzirão estas peças Rally assim mesmo, ou se o lote das peças será mais reduzido, a fim de tornar o preço mais atractivo.

Atractiva continua a ser a outra Star servida pela VivoScooters, a GTS Edition, num negro que não esconde as rodas de doze polegadas da Vespa GTS. Quatro mil cento e setenta euros, chave na mão, em Inglaterra. Músculo não lhe falta.




Imagens: Vivoscooters

Domingo, 29 de Janeiro de 2012

Regresso




A época scooterística inicia-se com a subida à Estrela, a mais alta serra de Portugal continental, a quase dois mil metros de altitude. É um evento anual do Vespa Clube de Lisboa que costuma conjugar a inclemência climatérica com a fome de estrada de quem está a acabar de atravessar o frio inverno.

Nos dois últimos anos a meteorologia engoliu a vontade de rolar,  canibalizada pela intempérie que impediu a saída das scooters da Pousada da Juventude das Penhas da Saúde. A mais de um mês de distância é impossível prever como se apresentará o tempo e, mais importante, se as estradas estarão ou não transitáveis, o que também acaba por aquecer as conversas à medida que se aproxima a data marcada nas agendas.

Já não participo em nada levemente aparentado com um passeio em companhia desde... Agosto. O que significa que estarei sete meses em jejum destes encontros. Talvez por isso já me inscrevi no passeio à Serra da Estrela, que prevê um máximo de trinta e seis participantes, e vou também inscrever-me no Portugal de Lés a Lés, que prevê um limite de... mil. Ecletismo puro.

Há pouco, enquanto regressava de Helix para casa, vinha a fazer uma lista mental de manutenção para enfrentar as jornadas do futuro próximo. A Helix  é daquelas scooters em que é fácil ser-se negligente com a oficina, quase nos esquecemos de que também precisa de atenção. No topo das prioridades está um pneu para a frente, cuja escolha ainda balança entre o Dunlop e o Pirelli. Depois um filtro de ar, que este já enfrentou as poeiras de dois Lés a Lés. E óleo novo para um motor veterano. Vinha a pensar também nuns punhos aquecidos. Experimentei agora umas luvas novas para inverno, ideais para chuva, mas com um par de graus acima de zero, à noite, e a setecentos metros de altitude, pareceram-me frias. Uns punhos aquecidos na Estrela saber-me-iam bem.



Terça-feira, 17 de Janeiro de 2012

Intermitências



Tradicionalmente a scooter é um meio de transporte urbano, utilitário, quotidiano, prático. 

Tendo eu duas scooters, não lhes dou a utilização tradicional. Fruto das minhas circunstâncias, têm sido apenas escape. Aliás, um escape intermitente. Olhando para dois mil e onze, fiz dois fins de semana de mil quilómetros cada, mais dois mil quilómetros em cinco dias no Lés a Lés. E uma gélida ida à Serra da Estrela no início de Março.

Portanto, um uso agressivo em curtos períodos de tempo. Para lá desse horizonte intensivo, esperam-me longas temporadas de interregno. Para as intervalar, e saciar um pouco do apetite de passeios maiores, exploro furos na agenda de fim de semana. Duas horas podem ser o bastante para retemperar a energia, abrandar e relaxar a solo. Simplesmente rolar e apreciar coisas simples.

Encostar numa aldeia deserta de gente nova, plena de texturas e ferrugens do tempo. Sentir o sol de inverno numa árvore nua. Sentar-me num abrigo de paragem de autocarro. Subir a Montejunto, para ver cair a neblina e a noite. Com a Bianca, a Serra e a máquina fotográfica. À espera das estrelas...












  
    

Sábado, 14 de Janeiro de 2012

Jogo da Mala



A minha Bianca, uma entre muitas Vespa GTS 300 Super, é muito prática em andamento, para além de ser das poucas scooters que se pode adjectivar de linda sem se correr o risco de sobrepor - ...muito... - a subjectividade à objectividade.

Padece, contudo, de um pecadilho que já vem da minha anterior Vespa Granturismo 200. Falha no primeiro detalhe pragmático e básico em que o scooterista pensa quando estaciona a scooter. Onde vou deixar o meu capacete? É incrível como a Piaggio nunca resolveu - aparentemente nem quis resolver - este problema, pois nenhum capacete digno desse nome cabe no met-in (ou baú por baixo do banco) da série GT(S). Nem mesmo o meu Vespa Granturismo (M), feito especificamente para esta série - mais um contrasenso - , a não ser que o esfole e comprima deformando o banco e o próprio capacete.

Este defeito, para além de ser obviamente irritante, revela uma outra pecha. Para além de o met-in ser pouco largo e com uma profundidade mínima, está mal aproveitado. Apresenta curvas e desníveis que retiram ainda mais espaço. É certo que estes recantos também existem noutras scooters. Mas nestas notam-se menos, pois muitas vezes conseguimos guardar um capacete integral, ou pelo menos um jet com viseira, o que nos faz esquecer o formato mais estranho deste compartimento.   

O que esta limitação implica é simples: muitos utilizadores intensivos da GT(S) optam por uma top case - como tinha a minha Granturismo - pela grelha traseira cromada ou pelo porta couves frontal. Ou pelas três em conjunto, se se for um devoto de viagens. Destas três soluções, na minha opinião, nenhuma se enquadra na aura da Super. Talvez o porta couves frontal possa ser uma excepção, e até ajuda a distribuir peso para a frente. Mas os suportes nunca me convenceram, e a quase certeza de danificar a pintura no escudo ainda menos me entusiasmam para comprar um.

Já tinha desistido de voltar a pensar no baú, até que na ida à Serra da Estrela com o Vespa Clube de Lisboa, o Luís Trigo me mostrou uma mala feita à medida para o met-in da sua Super.

Fiquei impressionado com a ideia, o detalhe e a qualidade do trabalho. Perguntei-lhe como tinha feito e decidi que faria uma para mim. Tem duas vantagens:  aproveita melhor o espaço existente e não permite que levemos para o met-in algo que nele não caberá. O que couber no saco, cabe no baú. O que é especialmente prático para alguém que faz sempre a mala no último minuto, esquece sempre algo de que precisa, acrescentando o que não necessita. Desenhado para quem tem uma má relação com o jogo da mala.






  










Sábado, 31 de Dezembro de 2011

Carris de Férias



Tenho tido poucas oportunidades para sair da garagem em duas rodas, mas hoje tudo se conjugou para uma tarde de conversa na estrada com a Bianca. Até Sintra, no último dia do ano, para desenhar linhas paralelas à linha do eléctrico. Numa ponta a Praia das Maçãs. Na outra, o início da vila de Sintra.










A ligação faz-se há mais de cem anos, desde 1904, embora com interrupções do serviço e diferentes extensões de linha ao longo do tempo. Lembro-me de vir para Sintra passar períodos de férias em criança, e de ver a linha ao abandono. Em 1975 a linha foi encerrada, ultrapassada pelo autocarro. Só em 1997, após requalificação, foi reaberto o troço Ribeira de Sintra  -Praia das Maçãs, mais próximo da configuração de 1904.
  

  








Este verão tentei trazer a  pequena Beatriz para viver as sensações do eléctrico aberto à brisa, ao longo dos doze quilómetros do percurso, mas deparámo-nos com filas maiores do que a capacidade do eléctrico. É uma viagem que exige tempo. Há que contar com quarenta e cinco minutos para cada lado. E se não houver lugar vago na carruagem, a espera pelo próximo eléctrico é de mais uma hora. 

Apesar de acompanhar a desilusão e frustração da Beatriz, fiquei secretamente contente por verificar que a procura pode exceder a oferta num serviço ferroviário com mais de cem anos em Portugal.   






Hoje não havia circulação, pelo que pude deambular à vontade pela linha. Mas não pelas novas oficinas. Tentei fotografar a frota que descansava debaixo do alpendre, mas não me foi permitido. Pude ver apenas três unidades ao longe. 

É impossível comparar a elegância de objectos industriais com largas décadas de diferença.

De um lado as mais belas carroçarias de eléctricos abertos, de bancos corridos e entrada lateral, de fabrico norte americano do início do século XX.          

Do outro, a Vespa.

Na falta dos eléctricos só pude fotografar a Bianca, mas no habitat natural da ferrovia.