quarta-feira, 20 de abril de 2011

Dilemas e Metáforas



Revejo-me com invulgar nitidez nos dilemas que Steve Williams tão bem descreve no seu Scooter in the Sticks, a propósito desse íman, dessa atracção irracional por motos de que não precisa. Existem várias diferenças entre nós, uma delas tem a ver com o grau de insensatez, já que ele tem uma scooter e eu duas. Mas, como diria o meu amigo Rui Tavares, eu poderia facilmente descolar ao comprar um terceiro par de rodas e, como bónus, atingir um nível de insanidade que me permitiria ser feliz por muito tempo...

Vem isto a propósito de um anseio, que há muito vem sendo auto-reprimido, de ter uma pequena trail, com reais aptidões fora de estrada. Simples, barata e económica. Que me permita enfrentar tiradas por caminhos e trilhos difíceis sem as limitações naturais de uma scooter. É um desejo que já me vem acompanhando há um par de anos, e que, de tempos a tempos, revisito com mais intensidade. E este é um desses momentos.

Não é segredo que o meu passado com motos é relativamente completo.  E que tive a sorte de poder ter e experimentar vários estilos de motos. O que é importante não só porque nos traz experiência, mas também porque esta nos ajuda a perceber com outra sustentação qual ou quais os tipos de moto que mais se adequam ao nosso perfil, à medida que o tempo avança. No fundo, conhecermo-nos, para responder à questão prosaica: o que pretendo de uma moto ?

É realmente estranho ver a quantidade de motos de topo, muitas delas de sonho, que trocam de mãos numa vertigem, com quilometragens mínimas, dando a impressão clara de que algo não correu bem na relação do Homem com a Máquina. No fundo, que esta não serviu o seu proprietário, pelo menos para a função para que foi concebida: justamente para ser conduzida.

Julgo que este ponto se une com outro, muito típico da mentalidade portuguesa - mas não só - , que se relaciona com a necessidade de exteriorização de uma imagem, com a afirmação de um estatuto, que se crê só ser possível de atingir com o último grito, de preferência com quatro dígitos à frente da cubicagem na ficha técnica, e três gordos algarismos na escala(da) de potência.  

A minha abordagem ao fenómeno das duas rodas está cada vez mais nos antípodas desta. O que não significa que não aprecie motos. Que não seja um entusiasta interessado. Bem antes pelo contrário. Não renego a perfeição de uma Honda VFR 1200, o quão bem pensada é uma BMW GS 1200, ou o objecto de desejo que é uma Guzzi V7. Simplesmente, cada vez mais privilegio outras sensações. Menos a velocidade, a potência, a vertigem. Mais a simplicidade, a leveza, a agilidade, a frugalidade, a acessibilidade. E que as duas rodas não me incutam nem induzam pressa de chegar ao destino.

Julgo que uma trail a quatro tempos pequena está muito perto de ultrapassar na perfeição a única limitação séria que actualmente encontro nas scooters, precisamente a dificuldade em lidar com obstáculos em todo o terreno, uma área que gostava de explorar.

Se conjugar tudo isto, as probabilidades de apreciar a vida e o mundo para lá dos limites da estrada aumentam.  Mesmo que a scooter represente neste momento, e claramente, a minha primeira escolha em duas rodas. Como alguém dizia na discussão que se gerou há dias no Scooter in the Sticks, "If riding a motorcycle is like piloting a fighter jet, riding a scooter is like being a bird". A metáfora é perfeita.

11 comentários:

Rui Tavares disse...

E quem não gostaria de voar com as próprias asas?
Lembra-te que nem todos têm a sorte de saber o que os faz ou faria feliz.
agora se passares a ser mais um jagunço deixarei óbviamente de te dirigir a palavra.

VCS disse...

Rui,

Diria que a permanente insatisfação associada à natureza humana ficaria temporariamente saciada com uma Serow 225cc, ou equivalente. A questão também é (entre outras, claro...) o quão anormal seria ter três pares de duas rodas em casa. Ao contrário de ti, não sou nem pretendo ser coleccionador :)

Já agora, quanto à utilização do termo "jagunço", para quem não está familiarizado com este jargão scooterístico: "motoqueiro jagunço" significa "motard" na pior acepção; labrego ; apreciador de concentrações de motos com porco no espeto e caneca de cerveja presa ao cinto das calças;
Ou, numa acepção mais suave: simplesmente um utilizador de duas rodas que não uma scooter. Este último é o caso do Rui, que tem uma Transalp no - 1 da garagem :).

Abraço,
Vasco

Rastafarian disse...

Há muito tempo que não lia algo que descrevesse tão na perfeição a minha forma de pensar em relação às motas... Esses sonhos jagunços passam pela cabeça de todos nós e penso que em doses moderadas até acabam por ser saudaveis.
Também sou um grande fã do scooter in the sticks e da BMW que o parece perseguir.
Nem todos os jagunços são "jagunços", a minha fiel companheira destes últimos 17 anos, uma XJ600, proporcionou-me quase 150000 km, confortavelmente sentado, sem pressas, sem estar presente numa única concentração, sempre com o prazer da viagem a sobrepor-se à rapidez da chegada ao destino...
Para o dia a dia e passeios ainda mais calmos, com menos de 1000km, prefiro a companhia da minha BWs50.

barreto disse...

tu que és tão fã da honda procura uma XR250 dos anos 90 e vais ser muito feliz! era o que pretendia para mim (daquelas com banco laranja) em algo que sinto tal qual como tu... a falta da "terra"

VCS disse...

Rastafarian,

Agradeço as palavras de apreço. É reconfortante saber que soam ecos das nossos pensamentos motorizados noutras cabeças que não a nossa :).
Uma Diversion com 150.000kms é raro encontrar, assim como era difícil escolher uma moto mais racional há 17 anos atrás.

Vasco

VCS disse...

Barreto,
O "chamamento da terra" tem-se revelado cada vez mais difícil de resistir. É certo que sou fã da Honda, mas não só não assinei nenhuma cláusula de exclusividade, como também gosto de manter o meu espírito aberto. Agradeço a sugestão da XR250 mas é demasiado competente para enduro. Eu procuro algo com características menos agressivas, mais "user friendly". Uma Serow 225cc com 15 anos parece-me encaixar bem no meu caderno de encargos.

Abraço,
Vasco

Júlio disse...

Tenho-me apercebido dessa tentação, que parece crescente, em torno da pequena trail.
Aliás, continuo a fazer votos para que cedas à tentação de a comprares para começarmos a fazer uns passeios off-road juntos!
Gostei muito de ler este texto. Em grande parte porque também me revejo nele. Eu próprio ainda me debato com esse impulso para adquirir outra mota. E esbarro, entre outros obstáculos, no absurdo que para mim também é ter 3 motas na garagem... Ao contrário de ti prescindi de uma scooter para ficar com uma trail por isso as minhas tentações agora andam mais para os lados das Vespas PX/LML... Ocasionalmente deixando o olhar prender-se na Guzzi ou numa Boneville mas aí, por razões económicas, rapidamente volto à terra. Também equaciono por vezes a possibilidade de uma NX4 como pau-para-toda-a-obra, substituindo assim a GT e a Domi e fazendo entrar na equação uma vespa rátátá... Enfim.. devaneios... :)
Apesar da minha muito pouca experiência com as duas rodas também vou tentando perceber melhor o que pretendo de uma mota. Não deixando de apreciar quase todas, apenas me vejo como utilizador de algumas. É por isso que apesar de reconhecer o maquinão que é uma GS1200 ou uma LC8 me vejo mais próximo de uma NX4. Muito pelas mesmas razões que descreves no teu texto.
A serow parece-me uma boa aposta. Enquadra-se nesse teu objectivo já bem definido. Tens procurado tb por Hondas NX250? A XR é de facto mais máquina para off-road mas conhecendo o que te move tb acho que a NX "encaixa" melhor... ;)
Vá... cede lá ao impulso e vai buscar a trail para nos fazermos ao caminho!! ;)
Um abraço
Júlio

VCS disse...

Júlio,

Gostei de te ler, grande sintonia de pontos de vista :).

Quando o assunto são scooters ou motos, esforço-me por não dar demasiada importância à lógica ou mesmo à coerência.

Olhando para trás, há 15 anos eu andava de CB 550 Four, queria ter uma CB 1000, e nem queria saber de scooters ou trails.

Hoje, com outro alinhamento de astros - a Serow não passou no conselho familiar - , para além de duas scooters na garagem estaria a comprar uma trail bem madura de... 225cc! As três juntas com menos cilindrada do que a 1000...

Um abraço,
Vasco

Leo_Dueñas disse...

A metáfora de encerramento da postagem me soa perfeita, quase genial. Já o dilema motociclístico, que se revelou até mais comum do que eu imaginava, resolvi afundando todas as minhas economias na restauração de uma Lambretta Special. Não sobrou um centavo sequer para adquirir uma Cyticom300i, quanto mais uma pequena trail.

Olho com respeito e admiração para as máquinas que colocam muita potência/frenagem/ciclística sobre duas rodas, mas além disso sinto um enorme prazer em guiar algo com o charme invulgar de uma scooter clássica. Tenho alma de passarinho, não de piloto de jato.

Abraço,
Leo

VCS disse...

Leo,

Fico contente por saber que a "insanidade" te venceu, e que não resististe a mais uma clássica. Se já tens três (?!)scooters clássicas na garagem, definitivamente esquece os caças...

Abraço,
Vasco

Leo_Dueñas disse...

Caro e querido Vasco,

Na realidade possuo atualmente apenas uma scooter e meia, pois a futura Lambretta ainda nem sequer foi para a pintura. Minha primeira "namorada", a Bajaj Classic 150, agora reside na garagem de um amigo meu, que por sua vez a juntou com uma Vespa GTS 250ie (um par pitoresco).

É um pouco forte afirmar "desta água nunca beberei", mas no meu momento presente a convicção é tamanha, que se dissesse que vislumbro uma motocicleta estaria mentindo solenemente.

Abraço,
Leo