segunda-feira, 7 de março de 2011

Branca de Neve (II)




O projecto era o de empreender uma viagem de quase trezentos quilómetros em scooter, numa gélida noite de inverno. A solo. Ao encontro de uma serra cuja estrada de acesso poderia estar coberta de um manto branco de neve: é o Vespa Clube de Lisboa na Serra da Estrela!

A previsão meteorológica era de forte nevão a partir das dez da noite de sexta-feira. Fazendo fé nos sites de meteorologia, teria que sair de casa pelas sete e meia, sob pena de ser obrigado a improvisar uma solução de recurso para pernoitar na Covilhã.

Sucede que só rodei a chave de contacto na garagem pelas oito e meia. O que implicou fazer figas para que a Helix suportasse trezentos quilómetros a fundo. E acreditar que os flocos de neve não se abateriam sobre a serra antes das onze da noite.

Passando pela Gardunha, uma estranha chuva que teimava em não escorrer pelo ecrã distraía-me. Mas ajudava-me a esmagar os últimos quilómetros até à Covilhã. Aqui, no sopé da Serra, e enquanto esperava o verde num semáforo, percebi que já não escaparia a uma subida difícil. Começava a nevar na Covilhã.

A minha preocupação era subir em segurança, mas em bom ritmo, tentando apanhar a estrada ainda aberta. Passei pela placa que indica o status das estradas, junto ao início da rampa que conheço bem, pois faço-a a pé com frequência aquando da Rampa Internacional Serra da Estrela. Nada como conhecer um caminho a pé! Esta leitura do terreno permitia-me antecipar o trajecto no meio do nevoeiro e da neve cortada, com flocos cada vez mais numerosos. Ajudava-me o tracejado central e a linha lateral, mas apenas quando as via...

Junto ao Sanatório passou por mim uma alma. Conduzia o limpa-neve e descia demasiado embalado para a minha percepção das condições da estrada. Desviei-me o mais que pude, ele passou pelo meio de faíscas emanadas pela pá de limpeza, enquanto eu procurava manter-me direito e em cima dos trilhos onde ainda tinha alguma tracção.

Fui descobrindo que abaixo dos 30-35kms/h não conseguia ter um nível de aderência mínimo, nem equilibrar-me devidamente, pelo que me esforcei por manter esta cadência regular. Cheguei finalmente à Pousada nas Penhas da Saúde, sem tombar a Helix, o que encarei como uma bem sucedida  primeira experiência na neve.

Estacionei no parque exterior junto à Heinkel do Rui, já esbranquiçada em cima do atrelado. A imagem da Heinkel em cima de duas rodas que não as suas foi a metáfora perfeita do fim de semana. Retida sem pisar alcatrão, amarrada pelos esticadores ao atrelado. Assim estivemos nós, presos à pequena urbe das Penhas da Saúde, com a estrada intransitável até à manhã de domingo.

A conversa ficou em dia, conhecemos novas caras e revimos velhos amigos. A gastronomia e a beleza natural do manto branco cobrindo a Serra reconfortaram-nos. Mas a neve e o gelo calaram-nos os motores. Menos estrada: mais fotos. 



































4 comentários:

barreto disse...

mais uma falha incrível... devia e podia lá ter estado!

VCS disse...

Barreto, a Serra espera por nós sempre, com mais ou menos rigor climatérico. Haja tempo livre e disponibilidade.

Abraço,
Vasco

Rui Tavares disse...

Fui dar um belo passeio de...carro.
Valeram os amigos.

Pizza Boy disse...

Excelentes fotos e história!!