sábado, 20 de outubro de 2012

Princesa Bastarda - LML 125 Automática




Interpretar a evolução do mercado no universo das scooters em geral é tarefa para pedir uma fotografia macro-económica, capaz de movimentar centenas de milhões de euros em números. Se fizermos zoom a essa mesma fotografia vamos encontrar uma realidade micro, mas ainda assim visível a olho nu, que dá pelo nome de novas-scooters-clássicas.

É uma espécie que já esteve em vias de extinção no final da primeira década deste milénio, apenas acarinhada por uma legião de apaixonados pelas clássicas que padeciam de alergia a embraiagens automáticas.

A reabilitação da espécie foi levada a cabo na Europa por iniciativa de um ramo bastardo da monarquia Piaggio que responde pelo nome de LML. A dinâmica particular deste construtor indiano é alavancada pela atenção ao mercado prestada pelo importador para a Europa, que parece saber ler as tendências sem amarras e ter vontade de arriscar.

É esta luta particular entre as duas linhas dinásticas que me interessa aqui focar. De um lado, o sangue legítimo - azul - da Piaggio. Do outro, o sangue bastardo da LML.

Trinta anos após o seu lançamento, a Piaggio deixou de produzir a eterna PX. Estávamos em 2007-2008, altura em que começaram a chegar timidamente à Europa os primeiros contentores com os lotes iniciais das LML Star a dois tempos. A este primeiro e tímido movimento a Piaggio decidiu não responder.

Em 2009 e 2010 a LML provou que era possível não só vender a Star como fazê-lo em mais cores do que as do arco-iris. Os números devem ter provocado um desconforto anormal em algumas cadeiras em Pontedera. Ainda mal refeitos do choque provocado pelo sucesso indiano com ideias italianas, viram a LML engatar a segunda lançando a Star a quatro tempos, sempre com caixa de velocidades na manete esquerda. E a Piaggio continuava à espera, parada com a vela isolada.

No final de 2010, na EICMA, a Piaggio reagiu com uma PX retocada, ainda e sempre a dois tempos. Dois stands mais ao lado, a LML respondia anunciando a 200 a quatro tempos, e várias versões novas da Star, incluindo uma versão de Troféu, território que também ele fôra da Piaggio. A PX fez algum sucesso mas nunca deixou de sentir-se acossada pelo círculo de versões LML Star que a rodeiam. O difícil é escolher uma, tão vasta é a gama.

A goleada segue agora com um novo capítulo, óbvio e previsível: uma Star igual às outras, mas com embraiagem automática. Um evoluido cento e vinte e cinco a quatro tempos. Envelope clássico, carta moderna. O motor trocou de lado com a terceira roda, as mudanças já não se trocam na manete esquerda junto ao punho. Para todo(a)s o(a)s que queriam uma Star, mas não querem mudanças manuais. É o fecho do ciclo na oferta LML e a automática até pode vir a ser  raínha. O preço ainda é uma incógnita em Portugal, mas não é de esperar pretensões estratosféricas em tempos de crise. Pelas minhas contas, o duelo vai em quatro a um.

Imagem: lmlitalia.com

5 comentários:

Leo_Dueñas disse...

Grande Vasco,

Uma excelente e pontual crônica do pedestal em que a Piaggio se colocou para, comodamente, sepultar a PX. Cegos ao meu ver do próprio orgulho, sentimento quase inexistente no seu concorrente asiático, entregaram de bandeja o próprio quintal - ainda mais em tempos magros, onde o pragmatismo supera o brio de ostentar o brasão original.

Engessada pela própria gama de produtos e de alguns traumas passados que não refletem a realidade contemporânea, a "casa" de Pontedera não conseguiu entender que o seu produto clássico é moda em praticamente todo o mundo. Ao passo que suas scooters CVT aos olhos do mercado são pouco mais que mais do mesmo com uma grife sofisticada em meio à dúzias de excelentes opções racionalmente melhores em custo benefício.

Um monobloco do tipo da PX com transmissão automática não é novidade a qualquer um que conheça o histórico da Vespa, pois na década de 1980 lá estava a PK inovando nesta categoria. O rei absoluto do mercado é o consumidor, o fabricante que não internalizar essa realidade acaba levando uma lição amarga de seus competidores entrantes, como vimos primeiro nos EUA e Europa com as motocicletas e depois com os automóveis japoneses (e hoje vejo no Brasil com os hábeis Sul Coreanos).

Só me resta lamentar o comodismo do criador e aplaudir a inovação incremental do copiador, que não teme escutar e atender aos anseios de quem decide a sua própria sorte. São lições primárias nos negócios que agora devem, pelo bem da Piaggio, incinerar algumas cadeiras.

Abraço,
Leo

Rastafarian Buda disse...

Mais uma "posta" excelente...
Um abraço

Rui Tavares disse...

Outro dia um casal amigo ofereceu uma scooter ao filho.
"Não é das Vespas verdadeiras, mas garantem-me que é ainda melhor".
Fui ver. Era uma LML.
Quem manda é o mercado. Quem escolhe é o consumidor, motivado principalmente pela moda, preço, funcionalidade, talvez nesta ordem.

Outro dia abordei um dono de uma "nova" PX com o pára lamas frontal arranhado. "Foi é muito cara. E parece que há umas melhores e mais baratas". LML, perguntei? "Sim, isso, mas pode-se trocar o logótipo.
Talvez a Piaggio se pudesse dedicar a fazer peças para as LML.

Mais um bom post, Vasco.

VCS disse...

Leo,

Obrigado pelo teu comentário, especialmente porque elaboraste e muito bem sobre as tuas razões, o que é raro ver fazer aqui no blog.

Estamos de acordo quanto a esta espécie de autismo que grassa na cúpula directiva da Piaggio, ao nível de quem toma decisões estratégicas.

É verdade que o negócio da Piaggio - incluindo aqui as outras marcas de motos de que é detentora - é muitíssimo maior do que o volume gerado pelo negócio Vespa. E se a comparação for com o negócio Vespa PX, a diferença é ainda maior, porque a PX é minoritária no que respeita a números Vespa.

O que eu estranho, mais do que a aparente decisão de manter a PX tal como está sem mais upgrades - o que, em si mesmo, é defensável - , é a total ausência de comunicação do grupo Piaggio a este respeito há anos. Ninguém dá a conhecer uma linha estratégica, para onde querem ir, no que é que estão a trabalhar em relação ao negócio "clássicas". Toda uma diferença para a LML...

Grande abraço,
Vasco

VCS disse...

Rastafarian Buda,

Obrigado pelo comentário.

Abraço,
Vasco


Rui,

É interessante esse aparente enraizamento da ideia de que a LML é melhor e mais barata do que a PX...

Abraço,
Vasco