domingo, 29 de janeiro de 2012

Regresso




A época scooterística inicia-se com a subida à Estrela, a mais alta serra de Portugal continental, a quase dois mil metros de altitude. É um evento anual do Vespa Clube de Lisboa que costuma conjugar a inclemência climatérica com a fome de estrada de quem está a acabar de atravessar o frio inverno.

Nos dois últimos anos a meteorologia engoliu a vontade de rolar,  canibalizada pela intempérie que impediu a saída das scooters da Pousada da Juventude das Penhas da Saúde. A mais de um mês de distância é impossível prever como se apresentará o tempo e, mais importante, se as estradas estarão ou não transitáveis, o que também acaba por aquecer as conversas à medida que se aproxima a data marcada nas agendas.

Já não participo em nada levemente aparentado com um passeio em companhia desde... Agosto. O que significa que estarei sete meses em jejum destes encontros. Talvez por isso já me inscrevi no passeio à Serra da Estrela, que prevê um máximo de trinta e seis participantes, e vou também inscrever-me no Portugal de Lés a Lés, que prevê um limite de... mil. Ecletismo puro.

Há pouco, enquanto regressava de Helix para casa, vinha a fazer uma lista mental de manutenção para enfrentar as jornadas do futuro próximo. A Helix  é daquelas scooters em que é fácil ser-se negligente com a oficina, quase nos esquecemos de que também precisa de atenção. No topo das prioridades está um pneu para a frente, cuja escolha ainda balança entre o Dunlop e o Pirelli. Depois um filtro de ar, que este já enfrentou as poeiras de dois Lés a Lés. E óleo novo para um motor veterano. Vinha a pensar também nuns punhos aquecidos. Experimentei agora umas luvas novas para inverno, ideais para chuva, mas com um par de graus acima de zero, à noite, e a setecentos metros de altitude, pareceram-me frias. Uns punhos aquecidos na Estrela saber-me-iam bem.



terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Intermitências



Tradicionalmente a scooter é um meio de transporte urbano, utilitário, quotidiano, prático. 

Tendo eu duas scooters, não lhes dou a utilização tradicional. Fruto das minhas circunstâncias, têm sido apenas escape. Aliás, um escape intermitente. Olhando para dois mil e onze, fiz dois fins de semana de mil quilómetros cada, mais dois mil quilómetros em cinco dias no Lés a Lés. E uma gélida ida à Serra da Estrela no início de Março.

Portanto, um uso agressivo em curtos períodos de tempo. Para lá desse horizonte intensivo, esperam-me longas temporadas de interregno. Para as intervalar, e saciar um pouco do apetite de passeios maiores, exploro furos na agenda de fim de semana. Duas horas podem ser o bastante para retemperar a energia, abrandar e relaxar a solo. Simplesmente rolar e apreciar coisas simples.

Encostar numa aldeia deserta de gente nova, plena de texturas e ferrugens do tempo. Sentir o sol de inverno numa árvore nua. Sentar-me num abrigo de paragem de autocarro. Subir a Montejunto, para ver cair a neblina e a noite. Com a Bianca, a Serra e a máquina fotográfica. À espera das estrelas...












  
    

sábado, 14 de janeiro de 2012

Jogo da Mala



A minha Bianca, uma entre muitas Vespa GTS 300 Super, é muito prática em andamento, para além de ser das poucas scooters que se pode adjectivar de linda sem se correr o risco de sobrepor - ...muito... - a subjectividade à objectividade.

Padece, contudo, de um pecadilho que já vem da minha anterior Vespa Granturismo 200. Falha no primeiro detalhe pragmático e básico em que o scooterista pensa quando estaciona a scooter. Onde vou deixar o meu capacete? É incrível como a Piaggio nunca resolveu - aparentemente nem quis resolver - este problema, pois nenhum capacete digno desse nome cabe no met-in (ou baú por baixo do banco) da série GT(S). Nem mesmo o meu Vespa Granturismo (M), feito especificamente para esta série - mais um contrasenso - , a não ser que o esfole e comprima deformando o banco e o próprio capacete.

Este defeito, para além de ser obviamente irritante, revela uma outra pecha. Para além de o met-in ser pouco largo e com uma profundidade mínima, está mal aproveitado. Apresenta curvas e desníveis que retiram ainda mais espaço. É certo que estes recantos também existem noutras scooters. Mas nestas notam-se menos, pois muitas vezes conseguimos guardar um capacete integral, ou pelo menos um jet com viseira, o que nos faz esquecer o formato mais estranho deste compartimento.   

O que esta limitação implica é simples: muitos utilizadores intensivos da GT(S) optam por uma top case - como tinha a minha Granturismo - pela grelha traseira cromada ou pelo porta couves frontal. Ou pelas três em conjunto, se se for um devoto de viagens. Destas três soluções, na minha opinião, nenhuma se enquadra na aura da Super. Talvez o porta couves frontal possa ser uma excepção, e até ajuda a distribuir peso para a frente. Mas os suportes nunca me convenceram, e a quase certeza de danificar a pintura no escudo ainda menos me entusiasmam para comprar um.

Já tinha desistido de voltar a pensar no baú, até que na ida à Serra da Estrela com o Vespa Clube de Lisboa, o Luís Trigo me mostrou uma mala feita à medida para o met-in da sua Super.

Fiquei impressionado com a ideia, o detalhe e a qualidade do trabalho. Perguntei-lhe como tinha feito e decidi que faria uma para mim. Tem duas vantagens:  aproveita melhor o espaço existente e não permite que levemos para o met-in algo que nele não caberá. O que couber no saco, cabe no baú. O que é especialmente prático para alguém que faz sempre a mala no último minuto, esquece sempre algo de que precisa, acrescentando o que não necessita. Desenhado para quem tem uma má relação com o jogo da mala.






  










sábado, 31 de dezembro de 2011

Carris de Férias



Tenho tido poucas oportunidades para sair da garagem em duas rodas, mas hoje tudo se conjugou para uma tarde de conversa na estrada com a Bianca. Até Sintra, no último dia do ano, para desenhar linhas paralelas à linha do eléctrico. Numa ponta a Praia das Maçãs. Na outra, o início da vila de Sintra.










A ligação faz-se há mais de cem anos, desde 1904, embora com interrupções do serviço e diferentes extensões de linha ao longo do tempo. Lembro-me de vir para Sintra passar períodos de férias em criança, e de ver a linha ao abandono. Em 1975 a linha foi encerrada, ultrapassada pelo autocarro. Só em 1997, após requalificação, foi reaberto o troço Ribeira de Sintra  -Praia das Maçãs, mais próximo da configuração de 1904.
  

  








Este verão tentei trazer a  pequena Beatriz para viver as sensações do eléctrico aberto à brisa, ao longo dos doze quilómetros do percurso, mas deparámo-nos com filas maiores do que a capacidade do eléctrico. É uma viagem que exige tempo. Há que contar com quarenta e cinco minutos para cada lado. E se não houver lugar vago na carruagem, a espera pelo próximo eléctrico é de mais uma hora. 

Apesar de acompanhar a desilusão e frustração da Beatriz, fiquei secretamente contente por verificar que a procura pode exceder a oferta num serviço ferroviário com mais de cem anos em Portugal.   






Hoje não havia circulação, pelo que pude deambular à vontade pela linha. Mas não pelas novas oficinas. Tentei fotografar a frota que descansava debaixo do alpendre, mas não me foi permitido. Pude ver apenas três unidades ao longe. 

É impossível comparar a elegância de objectos industriais com largas décadas de diferença.

De um lado as mais belas carroçarias de eléctricos abertos, de bancos corridos e entrada lateral, de fabrico norte americano do início do século XX.          

Do outro, a Vespa.

Na falta dos eléctricos só pude fotografar a Bianca, mas no habitat natural da ferrovia.







quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Uma Imagem, Duas Histórias





Fiz esta fotografia em Outubro de 2009, em Atenas. No fim-de-semana da última eleição legislativa, que haveria de conduzir ao poder Papandreou, entretanto demissionário.
 
Sem sequer suspeitar, testemunhei o dia zero do até aí impensável ataque criminoso às dívidas soberanas na Europa.
 
Pouco tempo depois a Grécia entraria na espiral ascendente dos juros da dívida pública, fenómeno que rapidamente se alastrou a países periféricos do Euro, Irlanda e Portugal, também já intervencionados pela troika, e que promete fazer mais vítimas entre as nações sob a mira dos mercados.

Ao voltar por acaso a esta imagem, de uma Vespa gasta numa rua estreita de Atenas, detive-me na observação dos detalhes, num exercício em que gosto de ligar a fotografia a aspectos e realidades que nela aparentemente não estão. Pelo menos directamente. Revi, então, vários sinais da história.

A de uma Europa velha, mas cheia de charme, representada pela Vespa.

A de uma sabedoria milenar, simbolizada pela língua grega na placa toponímica e pelo pedaço de Parténon na loja, também esta caduca.

A de um modelo económico já sem soluções, ultrapassado, como o autocolante no vidro da datada Kodak.

A dos europeus de rosto fechado, como o cadeado na porta.

Resta saber se a charmosa e velha Vespa se submeterá a restauro para resistir.  E se, ainda assim, resistirá.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Vespa Side



Um brinquedo de Natal. À invulgar escala 1:6, recebi este belo exemplar licenciado pela Piaggio Vespa representando uma Vespa 150 de 1955 com um apetecível side car.


Com chassis em metal, como convém, é uma peça interessante até pelas dimensões. Nunca tinha tido um modelo nesta escala, nem posso ter muitos até por razões de espaço. Estou neste momento a negociar uma garagem cá em casa para o ter exposto.








Um pormenor curioso é o facto de este exemplar em concreto ter estado muitos anos longe da vista de potenciais compradores, esquecido num armazém de uma livraria torreense. Foi ressuscitado na sequência de um pedido da compradora: não tem aí nada sobre a temática Vespa ? Ao que o vendedor terá respondido: passe por cá amanhã porque julgo que no armazém temos por lá qualquer coisa. E tinham. Numa caixa cheia de patine, desgastada provavelmente por uma prolongada exposição solar anterior, é um verdadeiro artigo new old stock.   






As vantagens destes brinquedos são várias: assim de repente, consigo desbobinar algumas: não avariam, (ainda) não pagam imposto de circulação, não precisam de seguro, não descarregam a bateria (as que a têm). Podemos ter modelos de sonho, e dar algum fôlego à imaginação por um preço simpático. Ou até podemos ser surpreendidos sob a forma de presente. Quantos de vós receberam uma Vespa 150 com side car de presente ? 





quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Embarque para 2012



Agora que a poeira assentou sobre o Salão de Milão de 2011, é altura de partir as brasas e olhar para as novidades no segmento de topo, o das scooters-avião. É uma categoria em que as scooters raramente fazem sentido, mas apetecem. Apresentam motores com um cilindro a mais do que era suposto. Têm mais cilindrada do que a classe raínha das corridas de Grande Prémio a dois tempos. São tão ou mais caras do que verdadeiras motos com a mesma ou mais capacidade. Mas são especiais. E noutros tempos acabavam por desencadear uma conversa evitável com o gerente do banco.

As atenções centram-se nas duas BMW novas, evoluções do protótipo do ano passado, e que marcam o regresso ao mercado da marca da hélice. Se o meu raciocínio estiver correcto, e o preço proposto não for meteórico, é uma boa cartada. O downsizing é uma cartilha para levar a sério em tempos de crise. No fundo, trata-se de partir ao meio a capacidade da eterna GS 1200, retirar-lhe o pó e as malas, acrescentando-lhe estilo e sentido prático como só uma scooter sabe fazer. Inclino-me para conceder a minha preferência à mais desportiva da linhagem, a C600 Sport, a que veste de azul. Não tenho dúvidas que será uma scooter competente, capaz de envergonhar algumas pseudo-desportivas. E digna de qualquer candidato a Top Gun no século XXI.




A Aprilia - ai, este Grupo Piaggio... - lançou uma Gilera submetendo-a a cirurgia plástica e alterando-lhe o nome no registo civil. Eu sei que a já bem conhecida Gilera GP 800 é um poço de agressividade. 


 


Na prima Aprilia a tensão não é menor. Só de olhar de perfil para a SRV 850  cerro os meus dentes, começo a suar na testa e os meus músculos ficam alerta. Intimida. Vai-me obrigar a confessar que nunca serei um Freddie Spencer. Não é bem isso que pretendo e procuro numa scooter.




E a raínha T-Max ? Acrescentaram-lhe 30cc, injectaram-lhe cavalos e emagreceram-na, para continuar a reinar. Está quase perfeita. Mas para além de impessoal e incrivelmente cara, é demasiado rápida para me permitir observar para lá das bermas. 




Sobra a Honda Integra. Ultrapassando a infelicidade da repetição do nome, a evolução do protótipo que vi em Milão em 2010 consegue ser, aos meus olhos, bem mais bela do que essa Mid Concept. O que já não é pouco. A comparação, para mim, é simples: se a VFR 1200 fosse uma scooter seria a Integra. Há muito de VFR nesta scooter. O grupo óptico frontal, a secção traseira esguia, a sobriedade dos vincos e traço geral do design, que lhe dão um toque de sofisticação depurado, muito apanágio das melhores Honda. Finalmente uma scooter de roda alta elegante! Desde que sem malas. No capítulo técnico, a dupla embraiagem com três modos (manual, e dois modos automáticos) ajuda a abrir o apetite por experimentá-la. Se estivesse comprador de um avião, seria a minha escolha para descolar em 2012.






 
Imagens: Catálogos e Videos Marcas