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sábado, 7 de agosto de 2010

Porque não uma SYM ? - SYM CityCom 300 i



Há pouco mais de um par de anos atrás, o pequeno e periférico mercado das scooters em Portugal foi invadido por uma vaga de produtos provindos da China, de tal modo que se verificou quase uma cisão estanque. Num primeiro degrau as propostas chinesas, privilegiando a acessibilidade e o baixo custo, e num segundo nível as criações japonesas e europeias. As diferenças, a todos os níveis, eram consideráveis o que fazia com que os dois patamares não canibalizassem o mercado um do outro.

Simultaneamente, e num período de forte ascendente que antecipou a transposição para o direito português da chamada “Directiva das 125”, surgiu no mercado uma marca que por muitos foi confundida com produções oriundas  da China, mas que rapidamente superou a desconfiança inicial, provando não temer as scooters nipónicas. Na verdade, oferecia ao mercado, em regra por muito menos, um produto de qualidade difícil de distinguir de uma tradicional japonesa. Estou a falar do gigante SYM, com sede em Taiwan.

Ao contrário do que se possa pensar, a SYM não nasceu agora, tem cinquenta anos de provas dadas no mercado mundial e essa experiência tem-se notado nos produtos que coloca no mercado europeu e na satisfação geral dos seus clientes.

No topo do catálogo da SYM encontra-se a Citycom 300i, scooter polivalente e de roda alta, que o importador RedMoto me sugeriu e - simpaticamente - cedeu para realizar o Portugal de Lés a Lés.

Este ano a prova propunha-se ligar Faro ao Porto, num percurso com um pouco mais de mil quilómetros, teste de resistência ideal para perceber qualidades e limitações de qualquer moto.

Cinco dias de utilização intensa, de manhã à noite, podiam tornar a minha convivência com a CityCom numa experiência demasiado longa e penosa. É justo dizer que sucedeu exactamente o contrário. À medida que os quilómetros se acumulavam a minha empatia pela CityCom não esmorecia. Na verdade, parecíamos velhos amigos que há muito não se encontravam. Desde os primeiros metros que me senti confortável e familiarizado com a dinâmica, a agilidade, o conforto e a potência disponível.

Olhando para ela parada percebe-se que não é uma scooter que faça rodar cabeças. Tem um design sóbrio e discreto mas também moderno, embora esteja longe de ser apaixonante. Talvez não seja fácil de identificar de imediato como sendo uma SYM, facto para o qual contribui a circunstância de apenas se encontrar um pequeno logótipo abaixo do ecrã, e outro, com o nome da marca, estampado no final do assento. A verdade é que fui abordado várias vezes no sentido de esclarecer qual a marca da CityCom.







O desenho é marcado pela frente com dupla óptica bem rasgada ao estilo oriental e por um ecrã alto, complementado por uma extensão lateral ao nível dos punhos muito útil na sua protecção.






A traseira é difícil de distinguir da concorrente Yamaha X-Max, tais são as semelhanças. Um bom conjunto de pegas para o passageiro enquadram os dois farolins num arranjo que, não sendo original, é muito agradável à vista.



Do lado direito sobressai o avantajado escape, elemento que marca claramente, e pela positiva, o desenho da CityCom. Nas laterais insinua-se um painel em plástico claro que pretende quebrar o negro do estrado e avental, ambos não pintados. O desenho das jantes de dezasseis polegadas, em estrela de cinco pontas, sublinha a sensação de robustez geral. O painel de instrumentos combina manómetros analógicos para taquímetro, velocímetro e temperatura da água com um display digital para o odómetro e nível de combustível, para além das imprescindíveis luzes avisadoras.



A ergonomia é um factor muito relevante na avaliação de uma scooter all rounder, exactamente o que a CityCom 300 pretende ser.

A posição de condução é muito natural, com o tronco direito, pernas em ângulo recto e braços a caírem sem esforço sobre os punhos. O estrado não admite variação no posicionamento dos pés, mas a sua acomodação é muito satisfatória. Os comandos são intuitivos, fáceis de usar e sólidos, bem como os espelhos de área majorada. O banco é muito generoso em largura, amplo e suficientemente macio para proporcionar viagens sem cansaço. O ecrã é perfeito para condutores com a minha estatura, um metro e setenta. A altura ao solo também não me pareceu um problema, sendo que a scooter é algo pesada na balança (182 kg) e em manobras parada, embora essa sensação se dissipe em andamento.










O espaço para bagagens é muito largo debaixo do banco, cabendo sem problemas um capacete integral, desde que de tamanho médio. À frente conta-se com um porta luvas pouco profundo e um sempre útil e robusto porta sacos.





A qualidade perceptível inspira muita confiança. Fiz algumas dezenas de quilómetros em locais pouco aconselháveis a scooters, com terra, lama e água com caudal quase para pescar, e a CityCom jamais se queixou. A montagem tem que se reconhecer como boa, não se ouvem ruídos parasitas, apesar de haver muito plástico na construção. A única nota menos positiva refere-se ao plástico duro usado no painel superior, no guiador e em volta do painel de instrumentos, que está uns furos abaixo da restante qualidade geral. Um pormenor a rever.



Em estrada a nota dominante é o equilíbrio. Está muito bem calibrada, vê-se e sente-se que está feita com saber, para responder às necessidades do condutor real, sem grandes fantasias nem adereços supérfluos ou pormenores especialmente rebuscados.

É rápida, tem um motor forte a qualquer regime, são 23cv a empurrar desde baixa rotação e com especial predilecção pelos regimes médios, embora não se furte a ritmos em auto-estrada entre os 140 e os 150kms/h, e com conforto! O taquímetro acaba por ser útil especialmente em autoestrada, pois permite-nos ter a percepção do esforço do motor em longas tiradas e, por outro lado, avaliamos melhor o óptimo desempenho do variador quando a velocidade é mais inconstante.



Para refrear estes ritmos contei com excelentes travões, apenas um disco à frente e outro na traseira, mas ambos incansáveis mesmo quando os tentei fatigar para lá do razoável.





O consumo oscilou entre os 3,2 e os 3,6 litros/100, frugalidade típica de scooter mais pequena e que me surpreendeu pela positiva.

O comportamento beneficia da conjugação de uma suspensão com o equilíbrio certo entre conforto e rigidez e um motor bem centrado no quadro, o que assegura uma boa distribuição de massas, se não perdermos de vista que se trata de uma scooter. As jantes de dezasseis polegadas permitem-lhe passar por buracos e desníveis na estrada com uma compostura impossível de reproduzir numa scooter de roda baixa. Absorve muito bem as irregularidades e digere com surpreendente eficácia andamentos mais exigentes, como sucessões intermináveis de curvas de raio apertado, ou curvas longas em auto-estrada em velocidades muito para além do limite legal. Sempre tão à vontade como a ziguezaguear entre filas de trânsito no centro de Faro!



Esta CityCom 300 i é proposta por Eur.3.990 o que, não sendo um preço de combate em tempos de crise, acaba por ser ajustado para o muito que oferece. E é mais barata do que uma Yamaha X-Max 125 (!). A maior concorrente desta SYM na categoria 300 é a Honda SH, mais rápida, mas cerca de Eur.700 mais cara, para além da Aprilia Scarabeo 300, esta ainda não disponível entre nós. As restantes propostas de roda alta (de que é exemplo a Piaggio Beverly) estão no patamar inferior em capacidade (250cc), mas ainda assim marginalmente acima no preço.



Equilibrada. É este o adjectivo que sobressai na conclusão da apreciação à CityCom 300i. Esta multiplicidade de utilizações tão bem resolvida permite-lhe criar a ponte perfeita entre a facilidade e a descontracção de uma scooter e a performance e qualidade de tacto de uma moto convencional de média dimensão. Não há nenhum ambiente real em que a CityCom não dê conta do recado. Arrancava com ela sem pestanejar rumo aos Picos da Europa ou ao Atlas Marroquino. E esse talvez seja o seu mais genuíno cartão de visita.

sábado, 26 de junho de 2010

Lés a Lés 2010 – Atracção pela Odisseia – Parte II




(continuação)

Dormir bem é fundamental para se poder acordar com a disposição certa. É, aliás, uma medida de gestão de energia fundamental.

Concentrar tanta estrada praticamente em dois dias, com mais de um dia inteiro em cima da scooter, obriga a um esforço que não é usual para viajantes ocasionais. O Lés a Lés não é tarefa para heróis, mas é aconselhável usar a cabeça, e gerir o calendário e o passeio com inteligência.

Beber álcool, por exemplo, é uma má ideia. A organização desincentiva o álcool, e fá-lo com acerto. Dormir boas horas de sono também retempera as forças. Dentro do possível, foi o que fizemos.

Escolhemos ficar a cerca de dez quilómetros de Sintra, numa bela casa de turismo de habitação cheia de história com vista para a Serra.

De manhã, pouco depois das cinco horas, a Serra ainda se vestia de neblina. Engolimos um princípio de pequeno almoço apressado e desencarcerámos as scooters da garagem improvisada.

Afastei o sono quando fiz passar o NEXX pelas orelhas e acordei o motor da fiel SYM CityCom. “Nunca te esqueças de ter uma postura cavalheiresca na estrada”, li de relance no início do road book desta Segunda Etapa, enquanto calçava as luvas. Veio-me à memória uma frase que nunca esqueci e que li num catálogo de papel das primeiras Honda VFR, talvez há vinte anos, quando ainda nem carta tinha: “A cortesia identifica o condutor com estilo”. O slogan é tão eficaz que ainda hoje me lembro dele. Também é assim que se passam mensagens e formam motociclistas…

Palanque para o controlo: saímos ligeiramente atrasados, e algo apreensivos com os avisos à extensão, no tempo, que a jornada ia importar. Contrabalançava isso com o conhecimento de boa parte do percurso matinal, o que me descansava quanto à navegação.

E a manhã começou com a descida a Colares a caminho da Praia das Maças e Azenhas do Mar, onde tínhamos à nossa espera um calórico pequeno almoço pelas seis e vinte. O dia ia acordando e as minhas memórias de infância iam sendo projectadas sobre a linha de comboio que liga Sintra à praia.







O percurso estava estudado com cuidado e imaginação, de tal modo que consegue sempre encontrar caminhos e alternativas que eu não conheço, mesmo quando me sinto quase em casa. Até ao Palácio Nacional de Mafra fomos seguindo o velho princípio deste passeio. Adoptar o roteiro mais tortuoso. E mais saboroso...



Do Palácio para mais um troço do velho Rali de Portugal, Gradil, com passagem à porta da Tapada de Mafra. Já fiz quilómetros nesta estrada a pé, conheço cada curva de olhos fechados. Sensação nova para mim num Lés a Lés, e que resulta do facto de o passeio pisar o Oeste pela primeira vez também.


Chamo o Rui pelos intercomunicadores para lhe dizer que ali à esquerda, a pouco mais de cem metros, entre colinas verdes, está o vale que serve de cenário a muitas das minhas fotografias da série Railroad Crossing no Offramp...

Ainda são oito da manhã, estamos em Vale Banfeito e já nos é servido, à ciclismo, com direito a saca e tudo, um reforço alimentar. Imediatamente antes de subirmos a um planalto em terra, mais meia dúzia de quilómetros técnicos desta vez com muitas regueiras a acrescentar alguma dificuldade, mas sem ribeiros. Fácil para a SYM.






Estamos a caminho de nova serra, desta vez a minha querida Serra de Montejunto, com a sua belíssima colónia de pinheiros mansos, quando nela entramos pelo lado de Vila Verde dos Francos, depois do primeiro planalto. Tínhamos controlo no cume, junto à Capela da Senhora das Neves, e o dia estava limpo, para desvendar a vista de quase setecentos metros de altitude, ponto mais alto da Estremadura.




A descida não se fez pela Abrigada – outro tesouro - , mas sim por Pragança, com a escolha da bela N366 até apontarmos agulhas a Rio Maior e as suas marinhas de sal, que aproveitámos para visitar, picando aí a tarjeta em mais um controlo.


Ainda nem são dez horas e já estamos a trepar novo Parque Natural, desta vez as Serras de Aires e Candeeiros. Algum pó aconselhava a guardar boas distâncias, aqui o chão é branco, de rocha calcária, e em redor as pedreiras vão abraçando de morte a Serra.




Daqui para Porto de Mós tirámos o pó branco aos pneus, seguindo em bom ritmo até Fátima, por Pia do Urso, e de Ourém até à Ribeira de Alge, afluente do Zêzere, mais um local que conheço bem graças aos Ralis.

Ligámos Figueiró dos Vinhos a Castanheira por outra estrada que já pisei, aproveitando para colar o acelerador da Citycom e acompanhar alguns participantes num grupo de BMW, imaginando-os incrédulos quando viam nos espelhos uma scooter de roda alta de médio porte a morder-lhes a roda traseira.



O almoço era na Lousã, mas para o merecermos tínhamos que trepar a Serra. Vegetação fechada, de vários tons de verde, ameaça invadir a estrada, tornando-a ainda mais estreita. Estou em simbiose perfeita com a SYM, não me canso destes encadeados de curvas e da forma como ela sai de uma para se encaixar na seguinte. Até parece estar no seu terreno de eleição.


Já a descer, o céu fecha-se e carrega as cores das aldeias de xisto. Candal é a mais visível e exuberante, mas também Talasnal e Vaqueirinho estão assinaladas.



Depois de almoço seguimos na rota de Foz do Arouce, Barragem de Mondelim e Mortágua. O passo seguinte seria o Caramulo, mais uma Serra, mas atrasaria demais o já longuíssimo dia de viagem, e a organização decidiu suprimir a subida.

Já levávamos dez horas de maratona quando encostámos para ver o Vouga, na ponte de São Pedro do Sul e suas Termas. Dez minutos de paragem, não mais. Ainda faltam quatro horas de curvas até ao Porto!


Em passeios como este, o ritmo é muito importante. Assim como o bom entrosamento com o nosso companheiro de equipa. O Rui Tavares confirmou, como se ainda fosse preciso, ser a companhia ideal para a odisseia, sempre de espírito aberto e pronto para distribuir boa disposição quando os quilómetros demoram mais tempo a rolar no odómetro. Sim, porque nem todos os quilómetros no Lés a Lés são de prazer. Também os há em relativo sacrifício, quer seja pelo cansaço, pela ausência de posição confortável em cima da scooter – felizmente poucos com a SYM - ou pela monotonia de alguns troços, impossível de evitar num percurso de mais de mil quilómetros. Por vezes o segredo está em escolher o ritmo de conforto, nem rápido, nem lento, de modo a não adormecer ou cansar demasiado.

Aqui, prestes a iniciar a subida à Freita, fez-me bem parar. Subi com novo ânimo para uma parte da etapa que talvez tenha sido a maior surpresa. A Serra da Freita, agreste, mas também fértil, árida mas com bonitos bosques, isolada, mas onde ainda sobrevivem aldeias no cume da montanha. Os desafios aqui são outros.








Descida a Vilarinho e a Manhouce, com um curto intervalo para lanche. Em direcção à Frecha da Mizarela, salto livre de setenta metros do Rio Caima, a maior queda de água de Portugal Continental.



Não conhecia a descida a Arouca, mas decidi aumentar o ritmo e espremer tudo o que os travões da Sym conseguiam dar, tentando perceber quando iriam perder eficácia e sobreaquecer. A descida parecia interminável, tal como a capacidade de escoar calor do único disco frontal, bem coadjuvado pelo seu homólogo traseiro, ambos cumprindo a função com total distinção.

Depois de Arouca deparámo-nos com mais uma overdose de curvas: trezentas e sessenta e cinco em ligação a Castelo de Paiva, com o Rio Paiva do lado direito. Vinte e três quilómetros de piso difícil e estrada algo suja, a exigir atenção e bom ritmo. Em Castelo de Paiva estava instalado o décimo nono controlo secreto. Em Entre-os-Rios pude ver a nova ponte, que substituiu a Hintze Ribeiro, de má memória.


Estávamos a cerca de uma hora do Porto, com treze horas em cima da espuma do banco da CityCom. Moído, mas ainda inteiro, e com reserva para esticar um pouco mais o punho direito na N108, que liga a Régua ao Porto, sempre entrecortada por alguns desvios para descida ao Rio Douro, um deles para o controlo secreto final.

A entrada no Porto fez-se sob cinco pontes: Freixo, S. João, D.Maria, Infante e D. Luís. Já em jeito comemorativo, o road book levou-nos por alguns dos pontos mais carismáticos da capital nortenha, com destaque para a Praça da Ribeira ou a Torre dos Clérigos. A chegada estava instalada em plena Avenida dos Aliados, palco nobre para nos receber em final festivo, com as máquinas guerreiras trepando a rampa da Câmara antes do palanque final.




Foi duro, mas mais uma vez valeu a pena. Devo agradecer ao meu companheiro de equipa, Rui Tavares, pela companhia e solidariedade. À Red Moto, importador da SYM em Portugal, por ter aceite o desafio de submeter a CityCom 300i a uma tortuosa viagem mais talhada para outras montadas. À NEXX, pela cedência dos capacetes X30, para o Rui, e XR1.R para mim. Provaram que se pode inovar, fazendo bem e conquistando o mundo a partir de Portugal.

A aposta da organização foi ganha e provou que os receios dos mais pessimistas não se concretizaram. É possível fazer o Lés a Lés com partidas e chegadas no litoral, fugindo aos percursos óbvios da nossa bela faixa costeira, sem descaracterizar a essência do passeio. Apesar da superação desse desafio, para o ano gostava que se repetissem escolhas mais interiores. Ao que sei, estão acertadas com autarquias as partidas e chegadas até 2013. Sinal de saúde para um evento que vale a pena acarinhar, e em que continuo a sentir-me bem. Só não sei em que scooter em 2011…

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Lés a Lés 2010 – Atracção pela Odisseia – Parte I



Quando recebo a agenda em papel a cada novo ano, há uma semana de trabalho que fica automaticamente mais curta, com um risco oblíquo na Quarta e outro na Sexta. O dia do meio é o feriado do Corpo de Deus, e essa é a semana de São Lés a Lés.

As razões são várias. Posso enumerar duas.

Pelas experiências anteriores fiquei a nutrir enorme respeito pelo capacidade dos organizadores para conseguirem surpreender os participantes. Não é fácil fazê-lo. Apesar de Portugal ser um país de grande contraste paisagístico, a verdade é que é mínimo em dimensão.

Depois porque não existe nenhum outro evento que conjugue de um modo tão feliz um passeio sem fins competitivos, por estrada, concentrado no tempo, com um bom road-book, e com forte componente de endurance. Ao que parece nem mesmo os Ralis Mototurísticos da mesma Federação de Motociclismo de Portugal, que ainda irei experimentar, mas desconfio que de scooter.

Podia continuar a discorrer sobre os motivos que me fazem rasgar o sorriso quando tenho pela frente uma dose cavalar de horas em cima da scooter. Como bem lembrava o road-book, seriam necessárias vinte e duas horas e meia de condução para percorrer as etapas de Sexta e Sábado. Pondo as coisas em perspectiva com dois exemplos: um ciclista profissional demora oito horas a percorrer a clássica Porto-Lisboa. A etapa Sintra–Porto no Lés a Lés demora catorze! Vinte e duas horas e meia de moto seriam suficientes para ir de Portugal à Dinamarca a cumprir o Código da Estrada. Falamos de endurance, portanto.

Resolvida que está a questão da participação, tenho que me deslocar para o Prólogo, em Faro. Encontro-me com o meu amigo e colega de equipa Rui Tavares em Santa Cruz, que vem acompanhado de dois outros parceiros de odisseia, Fontes e Outeiro, em duas Vespa GT(S).

O ritmo é o que mais nos convém, sem pressas. A estrada raramente é a direito. Por vezes assemelha-se a uma serpente, desviamo-nos para ver a Assenta, uma praia bonita, deserta de gente. Passamos de raspão pelas radiais de Lisboa, sinto-me confortável. A azáfama da cidade não me transmitiu qualquer ansiedade, estou relaxado e sereno. Decidimos descer rumo ao sul pelo litoral o que nos levou ao encontro de sardinhas em Setúbal e do barco para Tróia.




Daí seguimos a brisa do sudoeste só mudando a bússola quando líamos Lagos nas tabuletas. Só demos descanso às rodas em Alvor.

Tempo também para experimentar o capacete XR1-R que a NEXX colocou à minha disposição para realizar este 12º Portugal de Lés a Lés. Trata-se de um capacete inovador, extremamente leve, composto de carbono, fibra de vidro e kevlar, e inesperadamente fresco para um capacete fechado negro mate. Adiante no blog terei oportunidade de falar sobre ele em detalhe.




Na Honda Transalp podem ver o Rui Tavares, meu colega de equipa, desta vez poupando a Heinkel Tourist de 1960 com as edições de 2008 e 2009 no palmarés. As Vespa GT e GTS são do Fontes e Outeiro, também eles já repetentes.






A Quinta-Feira começou com as verificações administrativas e técnicas. Foi também dia de prólogo em volta de Faro, duas horas com sabor a um Algarve serrano e fresco de laranjais, em Santa Bárbara de Nexe e a um certo exotismo de Estói. A Ria acolheu-nos à chegada, em pano de fundo.
















Prenúncio de um dia seguinte duro, com saída às 6h11m40s para a equipa 36.

O dia de Sexta começou a meu gosto. Rapidamente nos vimos no troço algarvio da N2, uma estrada que parece desenhada para andar em duas rodas. Ésses a lembrar cerejas no verão, curvas de raio variável , lombas, bom ritmo, piso alcatifado.


Belo aperitivo para o melhor troço de terra deste Lés a Lés, 13,5 quilómetros com início perto da Cortelha, local de romaria para Mundiais de Motocross.






 


 


Por curiosidade, este mesmo troço por nós feito já havia sido servido aos participantes do Lisboa-Dakar de 2006. O troço estava assinalado como fácil, com passagens por duas ribeiras e algumas aldeias serranas sem lugar no mapa. Fácil para trails, claro. Mesmo assim, a solidez da SYM Citycom 300i impressionou-me. Muito fácil de levar em estradões mais abertos, passava pelos trilhos e pedra com uma compostura difícil de imaginar numa scooter. Apenas se ouvia algum ranger de plásticos, compreensível face à falta de maneiras do terreno. Suponho que os agradecimentos pelo relativo conforto devem ser dirigidos em grande parte às jantes de dezasseis polegadas. Fiquei-lhes ainda mais grato quando percebi as dificuldades por que passavam um par de LML naquele terreno mais pedregoso. Eram novinhas e o compreensível pudor dos seus donos fazia com que parecessem arrastar-se em clara missão de esforço.

Neste troço atravessámos duas ribeiras, a segunda delas a clássica Vascão, onde estava montado um controlo com "lavagem manual". Novamente útil o diâmetro das jantes da Sym, a ajudar na passagem a vau.










Fazer os troços de terra da Serra do Caldeirão às 7.00 da manhã é incomparavelmente melhor do que enfrentá-los ao final da tarde. Não só pelo cansaço físico, mas também pelas temperaturas. Às primeiras horas da manhã a disponibilidade para apreciar a paisagem e gozar a condução ainda está a despertar. Estradas entre o verde como estas ajudam a alertar os sentidos, precisamente quando estes ainda estão frescos. Aprovo a ideia.


De regresso à N2 rumamos a Almodôvar, Castro Verde e Aljustrel. Até Mombeja e Cuba a estrada inspira. Viajamos a direito mas sucessivamente rodeados de oliveiras e searas, em estradas estreitas, por vezes até com água nas margens, como na represa da Ribeira do Pisão. Em Cuba um olhar rápido sobre a estação e paragem para almoço. Já ? Sim, são 10 horas e 21 minutos !









Agradou-me muito esta primeira parte da etapa. A SYM veio a rolar muito bem, com conforto e num ritmo equilibrado, permitindo esticar um pouco quando o relógio assim nos obrigava. Parece que a conheço há muito. A ergonomia é excelente, o ecrã protege muito bem o tronco, o pescoço, e parte da cabeça, com o ar a deflectir numa zona do capacete que não achei incómoda, sendo que meço um metro e setenta. Estou realmente convencido.



Esta cilindrada é, de facto, um compromisso difícil de bater. Para consumos de 3,2 lts/100, o motor consegue ser muito alegre e disponível, resolvendo com autoridade a grande maioria das situações com que nos deparamos na estrada. É muito homogéneo desde baixo regime, com especial predilecção pela faixa média do taquímetro. Tem trato muito fácil, porque é suave e linear, o que o torna amigável. Ao mesmo tempo empurra-nos forte e com decisão até às 8.500 rpm, a cerca de 140 kms/h, se precisarmos de acelerar o passo.

Em curva é divertida, especialmente com bom tapete, onde o limite advém do ângulo do descanso que o faz raspar no chão, como que a avisar-nos que os Maxxis 140/70/16 atrás e 110/70/16 à frente estão a tocar a extremidade da banda de rolamento. Como em quase todas as scooters de médio porte, sente-se nervosa em curva a alta velocidade – acima de 100kms/h - , com o típico “varejar” que não chega a ser problemático, e que se controla com o aliviar da pressão sobre o guiador. Mas esta é uma utilização mais agressiva do que o habitual, que tende a pôr em evidência as fraquezas e limitações do próprio conceito de scooter. Julgo que não se lhe pode pedir muito mais do que solidez, fiabilidade, ergonomia e franca agradabilidade de condução. E essa experiência posso testemunhar na primeira pessoa.

A suspensão é um pouco dura atrás, e bem equilibrada à frente, sendo os travões de disco mais do que suficientes para as prestações, impressionando até mais pela resistência à fadiga – nunca sobreaquecem - do que propriamente pelo ataque e potência.

E foi de potência que se fez uso na segunda parte da etapa, com ligações a Vila Ruiva para vermos a sua ponte romana de 120 metros, a transpor a Ribeira de Odivelas, os centros bem típicos do Alvito, de Viana do Alentejo e de Alcáçovas, onde já passáramos num controlo no Lés de 2008.








O rumo a norte ditava a direcção de Montemor-o-Novo, e daqui para Vendas Novas, pela desinteressante N4, onde ainda faríamos cerca de vinte quilómetros até mudarmos de rota para leste em direcção ao Infantado, abandonando o Alentejo. A Herdade da Mata do Duque acolheu-nos com um traiçoeiro caminho de areia e gravilha que preparou a descida ao Almansor, com a passagem a vau de que vos mostrei um vídeo no post anterior. Daqui até Benavente nota para um controlo em plena Monumental de Santo Estêvão, conhecida praça tauromáquica.

Em Benavente tivemos, excepcionalmente, direito à passagem por uma ponte pedonal em madeira sobre o Sorraia. Os side cars ficaram de fora e acreditem que a ponte era muito estreita.



Um troço fresco entre valados, em ligação à caótica N10, levou-nos ao último reabastecimento do dia, junto à hoje fantasmagórica Estalagem do Gado Bravo. A partir daqui, Vila Franca de Xira foi um mal necessário para atingir o Oeste, nalguns tesouros mais escondidos, nem que para isso fosse necessário subir estradas de cimento como esta…





O percurso até Sintra foi do mais inesperado e insólito possível. Por Bucelas, Montachique ou Ponte de Lousa, sempre em verdadeiro carrossel, por atalhos e ruelas, chegámos até a fazer trilhos em terra perto do IC 19, tudo para evitar semáforos e confusão que podem paralisar uma caravana de mil e duzentos motociclistas. Nesta altura estava claramente a ter saudades da Serra do Caldeirão e das estradas alentejanas…

A etapa terminou em beleza, na romântica e bucólica Sintra, com passagem pelos troços da Lagoa Azul, Peninha e Sintra, com o último controlo no belíssimo Palácio da Pena, antes da chegada ao palanque no Parque de S.Pedro.














A etapa terminou relativamente cedo para um Lés a Lés, e chegámos com cerca de quinze minutos de avanço sobre a nossa hora ideal. Depois do palanque tínhamos alguns amigos e outros curiosos com a prestação da SYM CityCom 300i, ávidos por saber como se tinha portado a máquina. Até aqui irrepreensível. Mas o Sábado prometia ser bastante mais exigente…

(Continua)