sábado, 20 de junho de 2009

Lés a Lés 2009 - Álbum (I)


Abro aqui uma excepção ao formato usual do blog (um texto, uma foto), a propósito do Portugal de Lés a Lés 2009. Este evento único - de que me tornei um adepto incondicional, e sobre o qual já escrevi neste espaço a propósito da edição de 2008 - merece agora uma abordagem diferente, ilustrada com algumas fotografias comentadas. O balanço final da nossa participação superou largamente as nossas melhores expectativas. De tal modo que já ficou prometido o regresso em 2010, para além de outros projectos em agenda. As fotografias que se seguem são uma pequeníssima e imperfeita amostra do que o Lés a Lés pode ofererer aos participantes de mente aberta, com curiosidade e vontade de descobrir e aprender. Não substituem, de modo algum, a enriquecedora experiência da participação. Quem gosta mesmo de andar em duas rodas e nunca cruzou o país desta forma original, não faz ideia do que está a perder.


 

I - 11 de Junho de 2009, 7h52m. A caminho de Boticas, subimos sozinhos o Marão, guardados pelo rail duplo do IP4. A luz rasa vai aquecendo as sombras, o chão mantém-se molhado de um aguaceiro da noite cansada. Conforto-me com a minha viseira escura a 70% e disparo a máquina para este
efeito estranho.


 


II - A Heinkel prova que está em grande forma e, nas mãos certas, trepa com uma alma que me deixa surpreendido. O saco de desporto seguro pela rede por cima da terceira roda permite uma flexibilidade que vou invejando.


 


III - Boticas. É neste cenário sereno que somos recebidos com a tradicional simpatia transmontana. Dormiremos aqui, nesta casa com vista privilegiada, bem no centro nevrálgico da partida para o 11º Portugal de Lés a Lés.


 


IV - Embora não pareça, este registo foi feito quando liderávamos a caravana nos primeiros quilómetros do Prólogo desenhado em torno das Terras de Barroso. Marca os primeiros passos de uma parceria motociclística feliz, que esteja apenas no começo.


 


V - Apenas um exemplo de uma das várias aldeias tradicionais espalhadas em torno de Boticas, com a simplicidade dos espigueiros e a pedra como matriz. Um dia diferente na bem preservada aldeia de Curros, com mais de 900 motociclistas em descoberta.




VI - Este troço serrano rasga o monte num ambiente quase cru, árido. É difícil imaginar uma encosta mais despida do que a que se apresenta à esquerda da imagem. Aqui a Helix estava muito carregada e isso nota-se no modo como pende para trás no descanso.




VII - Covas do Barroso. Quando visito uma aldeia como esta sinto-me quase sempre na pele de um intruso. Quando a um primeiro sinal tímido se segue um sorriso como este, o receio de ser mal interpretado desvanece-se.


 


VIII - As tais motos “lógicas” de que falei no lançamento do evento. Estão por todo o lado, de tal modo que se tornam absolutamente banais.




IX - Luís Pinto: é um motociclista à séria. A imagem que ficou do Lés a Lés 2008 foi a da sua Indian Scout de 1928 a desbravar caminho até chegar a Sagres. Este ano, com o número um no dorso, levou esta Harley-Davidson da década de 50. Aqui já nos tinha emprestado cerca de um litro de gasolina da sua lata de combustível suplementar, para obviar a que ficasse seco na Helix. Infelizmente, alguns minutos depois desta fotografia ter sido registada, após termos almoçado juntos no dia do prólogo, o amigo Luís despistou-se sendo forçado a abandonar, com a clavícula fracturada. Desejo-lhe rápidas melhoras e espero vê-lo em 2010.




X - Uma estrada à Lés a Lés, a caminho da monumental aldeia de Vilarinho Seco.




XI - Um pouco de lama que parece perfeitamente inofensiva, mas era traiçoeira. Por muito pouco não caí aqui. Infelizmente houve quem tivesse caído, até de BMW GS, máquinas feitas para estes terrenos.




XII - Rui Tavares a curvar na Heinkel no seu estilo seguro.




XIII - David e Golias: Resquício da protegida indústria dos anos 60 e 70 das motorizadas da zona de Águeda, esta Famel partilha o espaço com duas BMW preparadas para uma viagem ao Pólo Norte.




XIV - À espera da hora de saída no palanque de Boticas para a 1ª Etapa. Seria uma jornada de 412 quilómetros até Castelo Branco.




XV - Descida ao Tâmega, num manto de neblina, 7h33m do dia 12 de Junho, numa zona que brevemente ficará submersa por uma mini-hídrica. A nossa equipa (nº 3) confraterniza com a equipa nº 2, em Norton 500 e Ariel 500, ambas da década de 50, que chegariam a Olhão com um escape preso por arame.


 


XVI - Paragem para o primeiro controlo da primeira etapa, nas minas romanas em Corta de Covas. Repare-se na guarda das minas recriada com pormenor pela organização.


 


XVII - O controlo obriga os participantes a visitar a mina e a falar em latim :-).




XVIII - Troço de terra na primeira etapa, a caminho de Murça, com extensão demasiada para máquinas como as nossas. Mas aguentaram… Aqui a Heinkel em modo endurista.
(continua)

sábado, 6 de junho de 2009

Lés a Lés 2009



A sabedoria empírica ensina-nos que para percorrer 2000 quilómetros em quatro dias, de moto, em Portugal, em etapas de mais de 12 horas na estrada, é aconselhável escolher um veículo confortável, rápido, robusto e fiável.

Uma larga maioria, seja porque tem juízo, seja porque lhe falta alguma audácia - depende da perspectiva - decide-se pelas opções óbvias, de 1000cc para cima, entre modelos como a Honda Varadero ou a BMW GS 1200.

Mas há uma pequena minoria, ainda assim não insignificante em número, que decide estreitar o desafio, optando por uma moto teoricamente inapropriada.
De uma BMW RS50 de 1956 a uma Sachs V5, passando pelas mais variadas scooters, há muito boa gente que se lança à empreitada que é o Lés-a-Lés na esperança de, com a tal montada desadequada entre mãos - vulgo chaço - divertir-se e chegar ao fim da missão.

Esta última é, por enquanto, a minha maneira de encarar o Lés-a-Lés. Este ano dou descanso à Vespa Granturismo, que tão bem se portou em 2008, e subo a bordo da minha Bizarra Locomotiva, a Honda CN 250 com 15 anos. Se lhe juntarmos a idade da Heinkel Tourist do Rui Tavares, meu companheiro de equipa, chegamos à bonita soma de 64 primaveras. Quase, quase na idade da reforma:).

Talvez por isso, e julgo que também porque vamos levar duas scooters invulgares, a organização decidiu atribuir à Scuderia Sereníssima o número três, numa caravana de 916 (!) motociclistas. Entre 11 e 13 de Junho, aos ésses entre Boticas e Olhão, a festa vai estar na estrada.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A Cub e o Palheiro



Lembram-se do post da Symba? Pois bem, provando que o que é altamente improvável não é impossível, recebi um email do amigo Fernando Pires que não só me informou que é o feliz proprietário de uma Honda Cub, como me enviou uma foto da sua máquina. Não é uma foto qualquer, como podem ver a Cub está mesmo num palheiro.

Trata-se de uma C102, um exemplar pioneiro cujo ano de produção exacto ainda não foi possível apurar, mas seguramente da década de sessenta. Da sua máquina o actual proprietário destaca a simplicidade e dimensões contidas do seu motor, notando que não tem bomba de óleo e que usa um tubo de lubrificação externa para levar o óleo do cárter à cabeça das válvulas. Uma ranhura em espiral na árvore de cames é responsável por bombear o óleo do cárter para a cabeça. A embraiagem é centrífuga e a caixa, nesta versão, tem três velocidades. O motor de arranque é ainda de 6 volts.

A história mais remota desta Cub é ainda nebulosa, mas aparentemente terá sido trazida para Portugal por um japonês, tendo ficado largos anos parada no aeroporto de Lisboa. Veio depois a ser adquirida por um polícia que prestava serviço no aeroporto da Portela. Este, por sua vez, vendeu-a a um residente em Vila Velha de Ródão. Aqui chegada não teve vida fácil, cumprindo tarefas quotidianas duras como vencer desníveis acentuados vindos do Tejo, carregando duas pessoas e uma caixa de peixe. Aos trabalhos forçados o motor conseguiu sobreviver a funcionar, mas o empeno da forquilha sugere uma desaceleração inesperada por embate em objecto sólido imprevisto. A boa notícia é que já há nova forquilha.

Actualmente, e após resgate do palheiro em Vila Velha de Ródão, já se encontra a aguardar mais material e tempo disponível para que o seu mais recente proprietário lhe dedique toda a sua atenção. A ideia é fazê-la regressar a uma condição tão próxima quanto possível da original. Bem merece!

Até lá vou ficar atento a este restauro. Com um pouco de sorte e oportunidade ainda volto à Cub para um ensaio de estrada... e para arquivar a imagem do palheiro.


Imagem: Fernando Pires

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Estranha Scooter



Paro em Góis para um café, está a faltar-me energia. Dirijo-me a pé até ao rio procurando a esplanada de verão. Está fechada pelo que volto para junto da Helix, que parei perto da praça central.


Quando regresso depois da cafeína, inspecciono o desgaste no piso dos pneus. Como num ritual automático, aperto lentamente o capacete e calço as luvas.


Tenho pela frente a EN342, que liga Góis à Lousã. Não tenho pressa. É domingo, não há trânsito, o dia está seco e ainda fresco. No café havia perguntado como estava o asfalto, há anos que aqui não passo. “Parece uma pista”. A resposta deixou-me tranquilo porque me recordo que é daquelas estradas em que parece que se esqueceram das rectas. 


Pergunto à Helix se está pronta. Quando rodo a chave responde-me afirmativamente ao acender o painel com um traço de temperatura e seis de combustível.


É uma companheira de viagem estranha, esta. Até paradoxal. No catálogo nasceu como scooter, mas é lenta e desajeitada na cidade, o que é tudo aquilo que uma scooter não deve ser. Parece sentir-se melhor aqui, nas curvas, topos e vales em volta do Ceira. É tudo menos desportiva, mas inclina-se com segurança até raspar o descanso central. É corpulenta e comprida mas, numa estrada como esta, dou por mim a apurar travagens e a enrolar cedo o punho à saída daquele gancho a subir. Como se houvesse décimas de segundo a recuperar.


Tudo isto raramente ultrapassando os dois dígitos na escala do velocímetro. E com um grau de diversão que duvido que sentiria se estivesse aos comandos de uma Fireblade. Gosto destes paradoxos...

quarta-feira, 20 de maio de 2009

“You meet the nicest people on a… Symba?!?”


Pode não parecer mas é uma pergunta de cultura geral: já ouviram falar da Honda Cub ? Se a vossa resposta for negativa seguramente não são seguidores do fenómeno das duas rodas. É que 60 milhões de pessoas têm ou já tiveram uma. É só o veículo motorizado mais vendido no planeta Terra, com presença ininterrupta no mercado desde 1958.

Apesar deste histórico ímpar, há uma óptima desculpa para quem não acertou. É que a Honda não vende a Cub nem na Europa, nem nos EUA há décadas. O que significa que encontrar uma nas filas de trânsito ou nalgum celeiro abandonado é um mero exercício de remota probabilidade matemática. Para desgosto de muitos aficionados do modelo, entre os quais se inclui o autor destas linhas.

Um pouco ao jeito do que fez a indiana LML com a descontinuada Vespa PX, a SYM, gigante construtor de Taiwan, acaba de lançar no mercado norte-americano a Symba, fortemente inspirada nos princípios de simplicidade e design característicos do ícone Honda Cub.


A julgar pelo entusiasmo gerado em torno do projecto do importador nos EUA, que vai começar a vender a Symba no final de Maio de 2009, está encontrada uma digna sucessora, para aquele mercado, do modelo idealizado por Soichiro Honda.


Convém não esquecer que a própria SYM já havia produzido a Cub para a Honda em alguns mercados específicos, tal como a LML o fizera anteriormente para a Piaggio com a PX.


Este facto faz presumir com alguma segurança que a SYM aprendeu com a experiência, domina o conceito, está atenta às necessidades e exigências do cliente e vai impor padrões de qualidade condizentes com a importância do desafio.


Para isso conta com uma scooter robusta e económica, de quatro velocidades semi-automáticas, com um monocilíndrico a quatro tempos de 101cc, capaz de se lançar a estratosféricos 85kms/h num embrulho que se mantém cool há cinco décadas.


Por mim, bem gostaria de poder dizer sym a uma Symba. Como sugeria o mais famoso slogan da Honda, adaptado no título, a empatia é tal que se torna quase impossível não fazer amigos com uma.

sábado, 16 de maio de 2009

Karlsruhe Express



Há scooters assim. Que parecem conciliar apenas o melhor de conceitos antagónicos, sem se notarem as suas insuficiências. São simultaneamente conservadoras e avançadas, porque exemplarmente construídas e fruto da melhor engenharia de inspiração aeronáutica. Estranhas porque de design inusual, mas belas porque de personalidade vincada. Confortáveis para viajar mas também rápidas se nos empenharmos numa estrada de montanha.


Entre 1953 e 1965 produziram-se na Alemanha, em Karlsruhe, em quantidades significativamente inferiores aos modelos de topo das rivais Lambretta e Vespa. Os preços altos e a qualidade inquestionável valeram-lhe o epíteto de “Rolls Royce das scooters”.


Para tentar perceber se este rótulo é merecido experimentei a Heinkel Tourist 103 A1 do Rui Tavares, exemplar de 1960.


Entre Arganil e o Piódão a estrada é retorcida como um carrossel, mas a vista é soberba. Sem nenhuma explicação prévia ou conselho, vejo-me aos comandos de uma preciosidade com quase meio século e três gerações de estrada.


A caixa, como boa scooter manual, obedece às ordens da rotação sobre o eixo da manete esquerda. Primeira para cima. Arranco com pouca suavidade, por evidente falta de simbiose com a máquina. Afinal mal nos conhecemos. Esperava um motor pouco rotativo, com um binário forte a baixo e médio regime, e os 175cc do motor dão-me exactamente isso. As três primeiras relações de caixa são próximas, mas a quarta é claramente mais longa, o que se agradece se queremos rolar com pouca ou nenhuma inclinação em subida, mas torna a última marcha quase retórica se precisamos de vencer pendentes acentuadas. Os travões acalmam-me, o que atesta a sua qualidade.


À medida que a estrada se contorce e as colinas se sucedem, vou ganhando confiança e aumento um pouco o ritmo. Viajamos num grupo de talvez uma dezena de scooters, estou a atrasá-los. A caixa continua a parecer-me difícil e, para o meu padrão, pouco precisa. O Rui vai atrás de mim na minha Helix, e tenta explicar-me pelo rádio como fazer: “deixa-a descer a rotação, e só depois engrenas a relação seguinte”. Obrigado, Rui, e desculpa lá…


A partir daqui a taxa de “pregos” reduziu-se para níveis quase razoáveis, e passei a gozar o passeio surpreendido por uma agilidade inesperada, cortesia de um ângulo de direcção muito fechado, e um centro de gravidade invulgar numa scooter, graças ao motor central. Pude então perceber o quão acertada é a fama das Heinkel: conjugam o luxo de uma scooter com o corportamento de uma moto.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Já viste´xisto ?! - IberoVespa 2009



Quem me conhece sabe que não sou um entusiasta de passeios de Vespa organizados. Com horários, lanches e filas indianas tão típicos das dezenas de encontros Vespistas que brotam como a flor das amendoeiras na Primavera.

Há, contudo, e como sempre, uma excepção a esta regra: os encontros do Vespa Clube de Lisboa. Boa parte dos elementos do VCL fazem um esforço sério para não só organizar, mas principalmente acolher e integrar de mente aberta quem tenha sido recentemente picado. Sem complexos. O que talvez ajude a explicar o seu sucesso e abrangência actuais. Sendo o mais antigo Vespa Clube português (nasceu em 1954, tem quase a idade da Vespa) não está envelhecido, fechado sobre si mesmo, mas antes ávido por receber sangue novo, com uma energia e vitalidade contagiantes.

Esse foi um dos motivos que me levou a acordar às seis da manhã de sábado e rumar a Arganil para o 13º IberoVespa. Estava avisado que convinha comparecer à festa de bigode, mas levantar áquela hora pareceu-me penitência suficiente. Por aqui também se vê quão arejado é o ambiente, ainda que o cheiro a mistura seja dominante.


Outro foi ter oportunidade de desenhar as várias serras da belíssima Serra do Açor com o traço da Helix. Não, não é uma provocação aparecer de Helix num evento de Vespas. Por estas bandas isso também é encarado com fair play. Aliás, foi possível avistar outras aves enquadradas na paisagem de Xisto, como Lambrettas e Heinkels.


Por último fazia uma década que não acampava. Curiosamente as últimas duas incursões campistas tinham tido destinos vizinhos, Góis e Lousã. Pareceu-me boa altura para voltar a pregar quatro estacas e recordar a sensação de dormir à temperatura ambiente. Claro que quase gelei, mas nem por isso acordei mal disposto.


Para terminar ainda trouxe uma Vespa nova para a garagem, uma PX rubra... bem, é à escala real, mas de... cartão.


Rever e fazer amigos, passear pelos tesouros naturais da região, a solo ou acompanhado, nas doses certas. É este o espírito do IberoVespa. Para o ano conto voltar. Quem sabe se de bigode...