sexta-feira, 12 de junho de 2020

946 Dior




A Piaggio acaba de anunciar mais uma versão especial da sua scooter bandeira, a 946.

A 946 original é uma scooter de que gosto desde o início, pois apesar do seu preço astronómico é algo mais do que um exercício de estilo para aparecer em revistas, como tentei evidenciar num post anterior.  

Para continuar a não ser original a Vespa volta a explorar o filão da moda, depois da Armani para quem fez outra 946, unindo agora esforços com outro parceiro do mesmo universo, a francesa Christian Dior do gigante do luxo LVMH.


A anterior versão Armani parece elegante perto da nova Dior.





Só tive acesso a estas imagens de hoje, mas parece-me que não se esforçaram muito. Tudo o que é possível ver nas fotografias divulgadas são sinais de ostentação óbvios e referências nada subtis à marca francesa, num conjunto pretensioso e que podia ter sido pensado por um proprietário fanático (?) da Dior com pouca imaginação.

Fica assim a interrogação: porquê despender com alegria cerca de dez mil euros neste exercício, com uma scooter que parece um objecto de decoração contrafeito e pejado de "torneiras de ouro"?

Haverá com certeza almas com bolsos suficientemente fundos para levar para casa uma destas 946 e seus imprescindíveis acessórios. Nada contra, não é o meu dinheiro.

Mas ao lado desta Dior, a 946 original parece um produto sensato. 





(Imagens Piaggio)

Regresso à Serra





Em circunstâncias normais dois dias livres na agenda para passear a solo de scooter já é um luxo. Mas como todos sabemos estes não são tempos normais. Qualquer passeio mínimo em dois mil e vinte parece-nos mais nítido, estamos mais atentos, como se estivéssemos a viver o primeiro. Ou o último. A experiência, muitas vezes pouco valorizada, passa a ser crua e intensa. Tudo é magnificado pela urgência, pelo medo de não podermos repetir.


Talvez isso explique por que razão preferi voltar à Serra da Estrela. Oferece-me uma quase inesgotável fonte de beleza natural, por vezes capaz de me emocionar. É simplesmente o meu lugar. Não nasci ali, nunca lá vivi ou trabalhei, não tenho origens familiares na Serra. Mas volto várias vezes com o entusiasmo íntimo de sempre. Até intensificado quando vou a solo, porque isso me permite parar para observar, fotografar ou explorar sem ser chato para ninguém. Praticar a observação no meu ritmo. Uma das minhas definições preferidas de luxo.  












segunda-feira, 13 de abril de 2020

Scooterismo em Confinamento




Aparentemente vamos sobreviver ao apocalipse anunciado. Se assim for, as minhas previsões para o último depósito eram manifestamente exageradas. Provavelmente fomos salvos pelo confinamento e pelo estado de emergência. Esperemos agora que os outros estados de emergência não decretados, mas que já espreitam à superfície, sejam superados com a mesma determinação.

Durante o confinamento, o mundo, tal como o conhecemos, parou. E as actividades scooterísticas também. Grandes eventos como o European Vespa Days, na cidade berço de Guimarães, foram já adiados para 2021. Provavelmente não iremos ter qualquer encontro significativo em 2020. Cancelámos a Serra da Estrela e felizmente não marcámos IberoVespa para este ano.


Estamos todos em suspenso, à espera do primeiro dia D.C., depois do coronavírus.


Até lá, o que fazer em recolher obrigatório? Parece ser a desculpa ideal para avançar em restauros. Como não tenho restauros para fazer, nem jeito ou tempo para eles, optei por comprar, em tempos de incerteza, um pedaço simbólico e modesto de memorabilia: um curioso livro de revisões Lambretta para a Sogni D´Oro. Com um agrafo ferrugento e tudo.


Foi o meu único "acto scooterístico" em trinta dias de confinamento e  teletrabalho.

domingo, 22 de março de 2020

Último Depósito Antes do Apocalipse ?




Em recolhimento obrigatório é mais difícil gozar um dos bons prazeres que a vida nos proporciona: andar de scooter.

O confinamento a um espaço pequeno, que se perspectiva poder durar vários meses, é algo de anormal. Para nós inédito em tempos de paz, e seguramente de memória longínqua para quem nunca esteve num teatro de guerra ou tem menos de setenta anos. 

Qualquer restrição à liberdade individual parece intolerável, não só para quem a dá por adquirida - em especial os mais novos - , mas também por aqueles que por ela tanto lutaram. Mais do que intolerável, às vezes parece insuportável. E ainda só passou uma semana.  

Não é que o tempo não passe, ou que não exista trabalho. Existe, chama-se teletrabalho e nem é por estarmos sistematicamente com um olho na televisão à espera das últimas notícias. 

A verdade é que a liberdade nos faz tanta falta. E só estamos a falar da liberdade de nos movermos para onde nos apetecer. Uma pequena parte das liberdades fundamentais.

Mas talvez a que mais colide com esta coisa estranha de gostar de deambular por qualquer que seja a geografia sentado em cima de um engenho com duas rodas a motor.

As coisas vão melhorar. Mas vai levar tempo.




As scooters estão ambas em bunkers. A Bianca está longe agora. A Sogni D´Oro está perto, mas não lhe posso lançar a mão na garagem que tem acesso interdito. 

Se pudesse escolher um último depósito antes que me apareça a mensagem game over na televisão… escolhia a Lambretta. 

Exactamente porque é a que me dá a sensação mais crua e intensa de liberdade.

E vocês ?



terça-feira, 10 de março de 2020

Vírus Lambretta






Ao que parece o apocalipse está próximo. Vários países a meio gás e com perspectivas negras no horizonte. Itália já tem as fronteiras fechadas, cenário quase inimaginável em tempos de paz. 



Enquanto isso, dentro dos balons da Lambretta, a propagação de vírus não se afigura possível, tal é a limpeza cirúrgica desta maravilha. Este mês completará cinquenta e quatro anos. 






sexta-feira, 6 de março de 2020

A Xis Oito e os Ecrãs





Os inconvenientes de não ter garagem para uma moto ou scooter são vários.

Habitualmente a preocupação número um é a da segurança. Garantir que a moto ou scooter está no mesmo sítio onde a deixámos.  

Qualquer motociclista tem pavor que a sua moto ou scooter desapareça sem deixar rasto.

Em seguida vem o desgaste. Uns meses com a Bala - a LML preta - em Lisboa, à chuva e ao sol, trouxeram-lhe um desgaste em especial ao nível da oxidação de alguns componentes que acelera uma deterioração já de si rápida da construção indiana. E muitas italianas não são muito melhores.

A terceira preocupação são os toques frequentes de outros utilizadores mais descuidados. Costumo chamar a este o separador riscos & amolgadelas. Muito frequente quando estaciono na baixa da cidade, onde o espaço é mínimo e as motos se encostam umas às outras como se tivessem necessidade de se aquecerem.

A ideia de comprar a Piaggio X8, no verão de 2017, visou precisamente trazer alguma paz ao meu espírito. Era a primeira vez em quase 30 anos que iria ter uma moto ou scooter na rua, descontando os poucos meses em que a Bala se prestou a esse serviço.

Comprar uma scooter desvalorizada, não muito vista e pouco apetecível no mercado - também do mercado de peças e roubos associados - , mas ainda assim competente, permitia-me estar suficientemente tranquilo. Pelo menos o risco financeiro não era muito significativo, face a uma scooter nova.

Claro que pretendia também ter uma scooter mais polivalente para as minhas (curtas) deslocações diárias, em especial em termos de espaço de carga, conforto e, porque não, alguma segurança adicional face à LML.

Por isso, a escolha da X8 foi a mais racional de todas as minhas motos ou scooters. Julgo que nunca antes tinha comprado uma scooter expressamente focada nas minhas reais necessidades. Provavelmente porque era a primeira vez que estava a comprar uma scooter de pura utilização diária.

Com o que eu não contava era com a quarta preocupação: o vento. 

É a terceira vez em três anos que a X8 cai do descanso central. É verdade que o descanso já foi soldado e não está tão estável quanto era desejável. Mas a X8 ainda é uma scooter pesada e não será fácil fazê-la cair do seu pedestal sem a ocorrência de rajadas bastante fortes.

Não descarto a possibilidade de duas das três quedas terem ocorrido devido a alguma maldade, mas não é essa a maior probabilidade. Quanto a esta terceira vez, não tenho dúvidas que foi provocada pelo vento forte nocturno, até porque mais duas motos na mesma artéria sofreram do mesmo mal, todas caíram para o mesmo lado, e havia sinais de vários objectos espalhados por via do temporal.

Das três ocasiões em que a X8 caiu, fê-lo sempre para o lado esquerdo.

As consequências foram alguns riscos na carenagem, cicatrizes que ficaram logo da primeira vez, e que não noto que tenham aumentado significativamente por força das quedas posteriores. Felizmente nenhum espelho ou carenagem partidos. Nem óptica ou farolim. Partiu-se uma manete esquerda na segunda queda, que viria a ser substituída por outra original, mas desta vez negra (!) em vez de cinzenta. Era o que havia disponível. 

A principal consequência da queda de há uns dias foi o ecrã se ter partido. Outra vez.



Desgraçadamente o ecrã era a única peça verdadeiramente imaculada que a X8 tinha quando a adquiri. Rachou logo nessa primeira queda, em 2018, e foi substituído por outro Givi alto igual, antes da nossa viagem que reproduziu o Lés a Lés de 2017.  

Voltou a partir agora. Desta vez rachou menos e aparentemente está mais estável. Na Oldscooter o incansável Manel rebitou o lado esquerdo, aproveitando o facto de o ecrã estar bem preso e estável do lado direito. Evita-se assim qualquer perigoso desprendimento em andamento. 




Veremos se consigo evitar novo investimento em mais um ecrã, que custa um pouco acima de cem euros. Não me faz confusão vê-lo rebitado e por enquanto não me estorva a visão, nem me parece instável, mesmo a velocidades de autoestrada, que já experimentei. 

Raios partam. O vento.



  

sábado, 22 de fevereiro de 2020

Viajar de Space Shuttle






Rolar na Lambretta é uma experiência. Nunca nada é garantido. Nem eu lhe cobro garantias. Julgo que não tenho o direito de o fazer, ela terá cinquenta e quatro anos já em Março. Como posso cobrar-lhe se  chego ao destino, se ela vai travar naquele espaço que antecipei, ou se algum dos componentes não vai gritar "estou cansado!".

A única garantia que tenho é a da intensidade do momento. O que exige que esteja minimamente em forma. E de sentidos bem despertos. Sinto-me vivo, muitas vezes com uma certa descarga de adrenalina. Mesmo a sessenta ou oitenta à hora. A cem sinto-me no Space Shuttle Discovery.

A Lambretta mostra-me uma perspectiva que de outra forma seria invisível para mim.