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domingo, 14 de junho de 2015

Lés a Lés 2015







A 17ª edição do Portugal de Lés a Lés viu a Scuderia Sereníssima, pela primeira vez, com o número um nos escudos. À Heinkel do Rui Tavares, que já tem dois Lés no curriculum (2008 e 2009) juntou-se agora a estreia da minha LML. Na verdade, foi a LML que arrastou a Heinkel para a edição deste ano, porque a Lambretta 190 de 2014 seria demasiado rápida. Aproveitou-se ainda a remontagem da outra Heinkel, a do Paulo Simões Coelho, para termos um trio teoricamente equilibrado em performance, tudo abaixo dos dez cavalos de potência. Para completar a equipa nº 2, convocou-se novamente o Miguel Lázaro, tripulando uma moderna Sym GTS 125. Este ano tínhamos o regresso do foguete de Mangualde, o Duarte Marques, que levou a sua Vespa PX 200, acompanhado da LML 200 do estreante Paulo Castanheira, ambos perfilados na equipa 4. 


O pequeno filme que aqui apresento é uma abordagem simples e pouco elaborada de alguns registos em video que fui fazendo na minha câmera SJ4000. Não é uma linguagem em que eu me sinta particularmente à vontade, nem o video pretende ser completo, é apenas uma visão que talvez corresponda a um processo de aprendizagem e de adaptação meu a este formato que tem quase tudo de novo para mim. 


A história deste Lés a Lés será escrita com mais desenvolvimento, e a seu tempo, no formato de papel, numa revista dedicada a esta temática dos clássicos. 


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Benefícios de Uma Insónia





Sexta para sábado. Deito-me cedo porque estou exausto de uma semana de loucos. E com uma rara insónia que me impediu de prosseguir no sono para além das cinco e meia da manhã. Às voltas na cama, aguentei até às seis e vinte. "Vou ver o dia a nascer". 


Capacete aberto, luvas. Kick. Saio da garagem e o céu está naquela transição do escuro profundo para um progressivo azul clareado. Naquela  luz que se mede diferente a cada minuto que passa. Paro cá fora, disfarço que ajeito o capacete e as luvas, como se alguém estivesse a observar-me. Na verdade, estou a olhar o céu a mudar. O sol não se vê e o frio ainda é o da noite. Deixo-me estar sentado em cima do banco creme, motor a trabalhar, sincopado. E, apesar dele, muitos pássaros alegres dominam as árvores em redor, indiferentes ao tímido pam-pam-pam. Agradeço à insónia a oportunidade, pressiono a embraiagem e rodo o punho para engatar a primeira. 


Escolho o rumo ao acaso, mas sei que a Nikon vai sair do saco para completar o passeio. Não vou muito longe. Alguns dos cenários de Bianca, ver passar o primeiro comboio à luz do dia. Vão ser duas horas a fotografar e a voltar a ver coisas simples. Descendo ao vale ainda escuro e subindo à montanha já clara. Já respiro melhor assim. 













sexta-feira, 3 de abril de 2015

Na Terra de LML (IV)






Três semanas sem rodar a chave de contacto numa scooter. Sem subir a rampa da garagem. Já começo a perder a memória próxima das sensações associadas. O que habitualmente faz soar um sinal de alarme: quebra dos níveis de equilíbrio. Na scooter e fora dela.  

A cuba do carburador já deve estar bem seca e a bateria pode não ter força para fazer rodar o motor de arranque. Ainda bem que tenho kick. 

Amanhã vai ser dia de dar uma volta e dizer bem-vinda Primavera, antes de mergulhar outra vez uns tempos para debaixo de água.
















sábado, 7 de março de 2015

Pela Serra com o Vespa Clube de Lisboa






Quero acreditar que esta LML tem o poder de me fazer andar na ponta dos meus dedos. Leve. Outra vez. Por agora é assim que me sinto na Azeitona. Com todas as suas imperfeições, insuficiências, fraquezas, limitações. Tão evidentes como cicatrizes que todos vêem. 


Ir à Serra com ela, na companhia do Miguel e do regressado Júlio, é como carimbar passagem para um encontro que faz todo o sentido. 


Uma scooter no seu elemento mais puro, tal como eu a vejo. Paradoxalmente não na cidade, ambiente para o qual foi idealizada e produzida. Mas aqui, junto ao ribeiro, a esta água cristalina, à pedra rude, ao caminho agreste de terra, àquela azinheira que dá vontade de abraçar no meio do silêncio deste lugar mágico.  


Ao lado deste vale, em cima da escarpa, a Azeitona cumpre a sua missão. Trazer-me aqui sem alaridos nem espalhafato. Sem protagonismo. Apaga-se. Cala-se o motor suave para se ouvir o som do silêncio. E dos ruídos naturais, a água livre no curso do ribeiro, o vento. 


O Júlio sobe a parede que serve de costas à Lagoa. É um anfiteatro íngreme, que daqui parece enorme. Que abriga e proporciona uma vista do vale que é a recompensa justa para quem teve a curiosidade de aqui vir dar. 


São os melhores cinco minutos da viagem. Estou fora da scooter, sentado algures no meio do anfiteatro, mergulhado na emoção de ver um cenário de um pequeno paraíso (existem grandes?), quase indomado pelo homem. O sol brilha e aquece o corpo e o espírito a esta altitude. 


É um privilégio estar aqui. Não sendo homem de fé, acredito que há momentos em que não é despropositado agradecermos interiormente o facto de estarmos vivos e com todos os sentidos despertos. Para observar. E, num pequeno papel, para fazer parte deste cenário. 


Se abandonarmos esta magia e subirmos mais trezentos ou quatrocentos metros de cota, vamos encontrar a estrada que nos levará à Torre. Olhando para o cume que daqui se vê, anuncia-se a inclemência da chuva e do nevoeiro, o desconforto e a frustração de nada ver para além de vinte metros à frente da minha viseira. Deixo-me ficar o mais que posso, sem pressa, mas teremos mesmo que ir. 


A passagem pela Torre quase sem neve e a viagem até Seia para almoçar fez-se nestas condições difíceis, com avarias (ou arrelias) numa Vespa aveirense, a precisar de uma vela de ignição que saiu do estojo do Júlio para ajudar a seguir viagem. Duas palavras de agradecimento e companheirismo Vespista e estamos de volta ao asfalto escorregadio. 


No regresso de Seia escolhemos o caminho mais longo. Fatos de chuva e equipamento pesado, câmara fotográfica abrigada da água que não parava de cair. 


Depois de alcançarmos o planalto nas Penhas Douradas, iniciamos a descida para Manteigas. Avanço um pouco na caravana e aumento o ritmo com o Duarte. Sinto-me confortável a descer na Azeitona. Quase sempre em quarta, terceira poucas vezes, prende-me muito o andamento. E segundas nem vê-las, quase que pára. Ao contrário, o Duarte espreme a rotação do motor livre da PX 200. Os sinais são bons, o piso vai secando, os pneus deixam-se tocar perto dos extremos. No gancho à direita da Pousada mantenho-me num ritmo alto, mas hesito no apex e o Duarte passa-me por fora na PX 200. À Duarte. Paramos à chegada a Manteigas e comentamos a condução e o prazer que estas pequenas máquinas anacrónicas nos dão. 


À noite, no Varandas, a conversa gira à volta de petiscos, de um arroz de zimbro e de um bom vinho regional, com as scooters em repouso no  parque da Pousada, iluminado à meia luz. 


A Serra é assim. Tem tudo o que preciso, em doses certas. A adrenalina e a calma. A solidão e o convívio. A natureza e essa máquina de aço. 


Tudo com alma.








































Imagem 14: Júlio Santos



sábado, 31 de janeiro de 2015

Lugares





Descobri este lugar no Verão, numa daquelas incursões em duas rodas deixa-ver-onde-isto-vai-dar. 

Para além de beneficiar do ar do mar, é um sítio de raro sossego e paz, onde parece que nada acontece. Ninguém passa. 

Abro um livro para ler em cima das pedras. 

Para o fotógrafo permite as mais variadas tomadas de vistas. E brincar com o enquadramento com uma amplitude pouco habitual. Parece um estúdio enorme, parece que estamos em vários outros lugares, sem sairmos do mesmo espaço. 

Gosto dos tons ocre. Da desordem ordenada das pedras. Das texturas do chão de areia, paus e rocha. E da LML, que ao mesmo tempo que estica o pescoço, dilui-se no meio dos tons da terra.


domingo, 25 de janeiro de 2015

29 / 14 & Outros Números





O que aqui se vê é arqueologia éle-éme-élista no pós-cirurgia à forqueta. Estão vocês a dizer: "parece-me que há alí peças que nada têm a ver com uma forqueta". Verdade. Mas não se esqueçam que a operação não visava a mudança de se... err...natureza. Ainda é uma LML. Logo, há outros órgãos que precisam de atenção.   









A presença da LML no hospital foi prolongada e o tempo despendido avariou o taxímetro. A narrativa era tão extensa que uma folha de factura não foi suficiente. 

Em contrapartida, posso provar documentalmente que o sangue azul PX E já corre nas veias da minha indiana a quatro tempos. Não foi preciso encomendar material com caril. Não. Tudo PX E, supostamente italiano e compatível.   




E o preço a pagar ? As peças são miúdas e nem são caras. Procuro a soma e nada. Viro a página e lá vem o taxímetro da mão de obra. 

Concluo duas coisas. Primeira: se tivesse habilidade mecânica podia perfeitamente fazer sozinho e barato, porque essa é uma real vantagem da LML. Segunda: pela primeira vez percebo que o meu projecto low cost está a derrapar como uma obra pública.






Pelo menos tenho a Azeitona em condições. Agora a meu gosto do ponto de vista mecânico. Decido então aproveitar a saída da oficina para ir experimentar a máquina. 

Enquanto fazia contas de cabeça e tentava ensaiar uma justificação racional para a súbita leveza que sentia no meu bolso, reparei que o trânsito no meio da cidade estava anormalmente caótico. 

Na segunda rotunda que encontro vejo vários Aston, MG, Sunbeam, Triumph, Bentley, Jaguar... Todos no pára-arranca. Lembro-me então que vira há umas semanas que o Encontro dos Ingleses, um passeio de clássicos com tradição, passaria por Torres Vedras este ano. Deve ser hoje. Vou atrás de um lindíssimo Jaguar E Coupé, amarelo suave, e decido segui-los quando o trânsito desanuvia à saída da cidade.    

O ritmo é bastante alegre, e a sinuosidade do percurso ditado pelo roadbook obriga-me a puxar a LML pelo pescoço para acompanhar a caravana. Não é só entre Lambrettas que se fazem duelos na estrada. Aqui também se esganam aceleradores, mas com mais zeros na equação. No meio da serra, acabo por fazer um inesperado e bem sucedido teste à máquina em companhia ilustre. 

Em vez de partilhar as curvas com a Heinkel do Rui, a indiana está a disputar uma travagem no meio de um Healey e de um XJS V12 ! 

Isto sim, é estilo ! 









domingo, 18 de janeiro de 2015

Azeitona no Estaminé (II)







Manhã em sessão de testes. Na oficina, numa inspecção visual, a LML não parecia estar totalmente alinhada, mas realmente é difícil treinar o olhar nestas máquinas. O guarda lamas nunca está direito, o descanso também não, há várias superfícies que concorrem para deformar linhas quadriculadas na nossa visão de frente para o esqueleto indiano. Neste particular, as PX também não ganham por grande margem, não se ficam a rir. É raro encontrar um guarda lamas alinhado. E agora, quando olho para uma, estou sempre a ver estes pormenores.






Durante a semana tinha tido nota de que os meus mais desastrosos receios não se tinham confirmado. Por ordem decrescente de gravidade: o quadro está direito; a forquilha não está empenada. Abaixo disto na escala já me permitia manter a scooter, e evitar o embaraço de exclamar imediatamente ao mecânico: "Vendida!".


Aparentemente o problema estava no braço da suspensão, o-rings, rolamentos e eixo. E as caixas de direcção também já tinham visto melhores dias. Não perguntei, mas espero que quem lhe mexeu tenha a vacina do tétano em dia.


  


A manhã esteve de aguaceiros, com um misto de estrada molhada ou apenas húmida em alguns locais menos abrigados do vento. Quase ideal para o efeito que pretendia, porque a LML era um verdadeiro susto à chuva, e a nova geometria talvez me contasse outra história hoje. Acertei a pressão dos pneus e arranquei. 


Assim que saí da cidade e apanhei uma recta percebi que tenho uma scooter nova: tirar as mãos do guiador equivale a manter a direcção. Acabou a inclinação para a esquerda. Passar em ressaltos também me trouxe uma sensação desconhecida, a suspensão da frente está suave e até progressiva. O travão da frente ficou a parecer menos potente, o que é bom nesta scooter. Ainda assim, é suficientemente forte para bloquear se for muito provocado. 


Tudo isto é muito bom, diverti-me a guiá-la, confiante. Até os pneus me pareciam melhores à chuva. Mas ainda não está perfeita. Noto ainda uma ligeira inclinação para o interior, quando curvo para a esquerda acima de setenta, oitenta, e toco no travão dianteiro. Muitíssimo menos do que sentia antes, é ligeiro, mas o efeito não foi totalmente eliminado. Porém, a partir daqui dou-me por satisfeito. Uma LML perfeita não existe.

   

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Azeitona no Estaminé





Como é do conhecimento público, este é o último blog de scooters a pesquisar quando se procura alguma informação útil sobre mecânica pura e dura. Fotografias e dicas sobre como montar uma forqueta ferrugenta numa LML são censuradas. Até hoje. As imagens, pelo menos. A LML está na concessão Piaggio - já de si um sacrilégio - para se perceber até que ponto o seu esquerdismo - sem conotação política - é culpa de um desvio de um garfo montado... à direita da roda. 

São, por isso, fotografias que vale a pena apreciar pela extrema raridade neste espaço. 

Quanto à minha restante actividade scooterística, tem-se limitado a pequenos e rápidos passeios de CN, e à minha primeira experiência de detalhe em scooter, por sinal bastante bem sucedida. A Bianca brilha agora com uma profundidade que aconselha o uso de óculos 3D. Infelizmente estava demasiado ocupado e entusiasmado com os resultados para usar a máquina fotográfica.

O que nos traz de volta ao óleo e ferrugem de uma LML.











sábado, 1 de novembro de 2014

Na Terra de LML (III)






À medida que a estação fria se aproxima, as folhas teimam em não alaranjar, nem amarelar. Quanto mais cair. O Outubro foi o Verão que quase não tivemos e estas são ainda imagens de luz de Verão.  


A LML tem alguns trabalhos pela frente, mas não me apetece entregá-la ao mecânico. Quero usá-la e gozá-la sem limitações, pelo menos enquanto não precisar de me vestir por várias camadas. Amanhã tenho que lembrar-me de colar ao lado do painel analógico um autocolante "brake rear". Ajuda a memorizar e a estabilizar a frente e o seu disco. É o único componente mecânico potente nesta scooter.












terça-feira, 9 de setembro de 2014

Na Terra de LML (II)





Quando a lentidão ultrapassa a pressa e encosta para olhar outra vez. Mas de outro ângulo.
















sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Na Terra de LML





Primeiros mil quilómetros feitos em trinta dias de azeitona, a minha LML. Como dizia a feliz metáfora do Hugo Reis aqui neste mesmo espaço, optar por uma LML "é como escrever textos à máquina para depois digitalizar e enviar por email e ainda argumentar que é a maneira certa de fazer as coisas."  

Ainda é cedo para balanços. Até porque há vários aspectos que ainda não estão operacionais para se fazer uma avaliação justa da LML, o mais relevante dos quais é o alinhamento da forqueta e a correspondente interferência na dinâmica da máquina. 

Já sabia que teria que comprar uma bateria e finalmente fui hoje buscá-la à Old Scooter. Andou durante este mês sem bateria, talvez para o mergulho na experiência ser mais autêntico, usando o kick, em vez do polegar num botão, que nem sei se funcionará.

Para além dos anoréticos consumos de cerca de dois litros aos cem, o que posso atestar é que tenho feito um número anormalmente alto de quilómetros em terra. Tudo serve para me desviar por atalhos que levantam pó. Percebo agora que é uma scooter fácil de levar pelos maus caminhos (!) que teimam em pairar no meu horizonte, o que ajuda a explicar este apetite quase insaciável. É sobretudo uma mudança radical face à Helix, demasiado longa e cansativa nestes terrenos. 

O que também já percebi é o que é que o motor me faz lembrar em termos de carácter: um diesel dos anos 80. Vou ter seguramente a scooter mais lenta do grupo no próximo Lés a Lés. O que me intriga e entusiasma. Mais uma primeira vez culpa da LML.